"A idéia do Partido dos Trabalhadores surgiu com o avanço e o fortalecimento desse novo e amplo movimento social que, hoje, se estende das fábricas aos bairros; dos sindicatos às comunidades eclesiais de base; dos movimentos contra a carestia às associações de moradores; do movimento estudantil e de intelectuais às associações profissionais; do movimento dos negros ao movimento das mulheres; e ainda outros, como os que lutam pelos direitos das populações indígenas".
Surgiu, portanto, como uma necessidade de:
-criar um efetivo canal de expressão política e partidária dos trabalhadores das cidades e dos campos e de todos os setores explorados pelo capitalismo;
-construir uma organização política dos militantes dos variados movimentos sociais, que são freqüentemente fragmentados pelas suas próprias diferenças internas e por luta reivindicatória que nem sempre alcança a expressão de política de que são capazes."
Esse texto faz parte da Declaração Política da Comissão Coordenadora Provisória do Movimento pelo Partido dos Trabalhadores, divulgada em 13 de Outubro de 1979, com o objetivo de contribuir para a ampliação dos debates para criação do nosso partido junto aos movimentos populares.
Continua muito atual. Poderia fazer parte de qualquer das teses que recentemente participaram do Processo de Eleições Diretas (PED) que renovaram nossas direções Municipais, Estaduais e Nacional.
Todas essas teses, embora com diferentes visões sobre o futuro de nosso partido diante de sua maior crise nos seus 25 anos de existência, tem uma concordância: o papel principal dessas lutas e movimentos que influenciaram a origem do PT foi o de impulsionar uma nova cultura política com base na participação democrática que propiciou o surgimento de movimentos sociais com capacidade de operar as suas demandas e reivindicações.
Essa nova cultura política apontou a perspectiva de um projeto alternativo de poder para a sociedade brasileira, que pressupunha a construção de um país soberano, democrático e com justiça social. Essa perspectiva para muitos que participaram dessas lutas e movimentos foi a construção do Partido dos Trabalhadores.
Ainda como parte do PED estão em curso a realização dos Encontros Setoriais. Nos dias 1 e 2 de outubro foram realizados em vários estados os Encontros Setoriais Estaduais. Nos dias 29 e 30 de outubro serão realizados os Encontros Nacionais Setoriais.
No momento em que estamos debatendo a recriação, refundação, reestruturação e a reorganização de nosso Partido, é importante que os delegados e delegadas que estão participando desses encontros, para além das disputas das direções dos Setoriais, estejam atentos para alguns dos consensos da Conferência Nacional "O PT e os Movimentos Sociais" realizada em 15 de maio de 2005 pelo Diretório Nacional, em parceria com a Fundação Perseu Abramo, e coordenada pelas Secretarias Setoriais Nacionais. São eles:
a) Trabalharmos para haver uma definição clara dos papéis do Estado, do Partido e dos movimentos, compreendendo que é imprescindível atualizar o projeto político, a estratégia e a relação do PT com os movimentos sociais face ao momento histórico que vivemos;
b) Contribuirmos para que o discurso do Partido incorpore plenamente as questões dos movimentos e dê respostas às demandas a ele apresentadas, reforçando a saudável relação de mão dupla que historicamente há entre os setores organizados e o PT;
c) Reconhecermos a autonomia dos movimentos frente ao governo, compreendendo que ela é boa para ambos, pois ao defender suas bandeiras independentemente dos interesses governamentais, estes fazem um contraponto às pressões dos setores conservadores e contribuem para a viabilização dos programas sociais do governo;
d) Reiterar a autonomia dos movimentos sociais frente ao Partido, demonstrando, ainda, que ela contribuiu de maneira significativa para a oxigenação, democracia, pluralidade e crescimento do PT;
e) Contribuirmos para que os movimentos autonomamente ocupem espaços de poder na estrutura do Estado, em âmbito municipal, estadual e federal, disputando com os setores conservadores e defendendo às suas demandas nestas instâncias de decisão;
f) Contribuirmos para melhora da comunicação governo/partido/movimentos, criarmos novos instrumentos e otimizarmos os já existentes garantindo para os setoriais o espaço que a sua importância política exige
Nesse momento em que debatemos a crise política do PT compreendemos não ser possível voltarmos às origens que o construíram. Entretanto é possível manter as relações e as bases sociais e políticas que são a garantia da existência de nosso Partido que, como indicaram os números do PED, continua vivo e forte. Fortalecer os Setoriais é um caminho para que isso aconteça.
*Flávio Jorge Rodrigues da Silva é diretor da Fundação Perseu Abramo.
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