Os pioneiros sociais, no País, chegaram a uma encruzilhada. É preciso inserir seus dilemas atuais no quadro de suas experiências gerais. A trajetória da vertente proletária da esquerda, que começou no início do século XX, tem sido, fundamentalmente, a história das sensibilidades e disputas do mundo do trabalho. Teve vários ciclos, todos encerrados com o esgotamento de suas condições objetivas de existência e das estratégias que os nortearam.
Os grandes períodos da esquerda brasileira
O primeiro capítulo, de influência anarco-sindicalista, teve como teto as manifestações de 1917. O desenvolvimento do capitalismo - com o fortalecimento dos assalariados fabris e a complexificação da sociedade - e a crise nacional dos anos vinte exigiram novas concepções e formas de luta sofisticadas. Tal como na Europa, a velha hegemonia foi incapaz de superar sua imaturidade orgânica e sua indisposição imanente à política institucional.
O segundo, aberto com a criação do PCB, passou por treze anos de clandestinidade e o ataque à Aliança Nacional Libertadora. Esgotou-se na Insurreição de 1935, com a falência da linha centrada no levante em quartéis. Mesmo com um programa nacional-popular e motivada pelo sentimento democrático diante da ascensão fascista, a revolta foi uma ação de vanguarda ao estilo conspirativo, facilitando as provocações, o isolamento e a repressão.
O terceiro ciclo terminou na cassação dos comunistas, em 1947, desagregando um acúmulo feito no outro extremo da oscilação pendular. Prevalecera a expectativa em reformas democrático-burguesas através da aliança estratégica com empresários progressistas, da conciliação de classes, da complacência com o Governo Dutra e da disputa interior à ordem na perspectiva exclusiva de constitucionalização democrática e crescimento parlamentar.
O quarto capítulo se abriu com autocrítica da esquerda, que passou a grandes ações de massas na oposição. Mas a tese da revolução em duas etapas gerou o reformismo e o reboquismo face à "burguesia nacional". No início dos sessenta, apostava tudo na democratização do Estado e no nacional-desenvolvimentismo. Cega à lógica da reação - baseada na centralização, concentração e associação de capitais -, não conseguiu deter o golpe de 64.
O quinto começa com a diáspora das forças socialistas. A unidade antiditatorial é alcançada, mas detida pelo terrorismo de Estado. Após a derrota de tentativas blanquistas, a resistência recrudesceu na crise do regime. Com partidos anticapitalistas reorganizando-se e sem situação revolucionária, a luta foi hegemonizada pela oposição burguesa. Afirmou-se a transição conservadora à democracia do capital, afinal vista como meta e "valor universal".
A pior derrota de todas
Hoje, termina o ciclo aberto no ocaso da forma ditatorial-militar do Estado: passou pela consolidação do PT e desaguou - após a vitória de 2002 - no transfúgio dos setores partidários hegemônicos e principais governantes para o "pensamento único" e novos vínculos sociais. Tal bancarrota vem não no fogo do combate à classe dominante, mas pela via da adaptação. A esquerda sofreu o revés mais profundo e desmoralizador de sua história.
De fato, o atual governo foi eleito pelos "de baixo", mas administra com e para os "de cima". Prostrou-se às lógicas das reproduções metabólicas do capital e do Estado burguês sob a primazia neoliberal. Seu conteúdo social é de coalizão pluriclassista, com forte presença conservadora, direção social-liberal e hegemonia oligopolista-financeira, características que se aprofundaram crise após crise, até chegar à calamitosa situação atual.
Assim, as maiorias viram os políticos que elegeram para mudar o País aplicarem, na essência, a mesma receita dos vencidos e fazer-lhes companhia na vala comum. Pior: dando-lhes argumento e munição. Esse desfecho repercute sobre a credibilidade do projeto humano-universal e sua capacidade de retomar a luta socialista. O ônus da ruína caiu sobre os ombros do conjunto do campo democrático-popular e não apenas dos maiores responsáveis.
A principal lição
Esgotou-se o impulso inovador do PT. Por ação da hegemonia interna, é um partido inorgânico. Fragmentado doutrinária, ideológica e politicamente. Alquebrado pela concepção pragmático-possibilista. Dissolvido na sociedade política burguesa. Contrário à luta de classe dos trabalhadores. Cativo dos piores vícios: fisiologismo e burocracia interna grudada ao status quo, bem como dependente do aparelho estatal, tráfico de influências e lobbies.
Tudo isso em nome de mudanças cosméticas dentro da sociabilidade vigente e cada vez mais coincidentes com as ambições eleitorais, para as quais os fins justificariam os meios. As pontas desse iceberg foram o rebaixamento programático, as alianças sem princípio, o surgimento de camarilhas e o vale-tudo. As forças socialistas se encontram, pois - muito mais que nos anos 22, 35, 47, 64 e oitenta - numa situação gravíssima e complexa.
Essa crise não será resolvida com reforma moral e punições. A falência de um projeto exige outro mais avançado. Marx, em 1844 - Glosas... - mostrou como é "parafrásico ou absurdo uma revolução social com alma política", que por manter a velha ordem não supera os seus fundamentos. Propôs como "racional, ao contrário, uma revolução política com alma social". Só então "o socialismo se desembaraça do seu revestimento político".
A compreensão radical do que acontece é condição para a esquerda possuir consciência de si e ser sujeito de sua reorganização. Novamente, ficou provado que a política deve ser não um fim em si mesmo, mas o instrumento e o modo de ser da luta social do Bloco Histórico. Apenas a estratégia revolucionária articula, produtivamente, a ação transformadora. Só nessa perspectiva, fundada na razão crítica, vale a pena o otimismo da vontade.
*Ronald Rocha é sociólogo e membro dos conselhos editoriais das revistas Teoria e Debate e Reportagem.
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