Dados técnicos
Editora: Fundação Perseu Abramo
ISBN: 8576430023
Páginas: 112
Ano: 2006
Formato: 14x21
Acabamento: brochura
Lingua: Português
Autores: ARROYO, João Cláudio Tupinambá; SCHUCH, Flávio Camargo
Sinopse
Economia Popular e Solidária ilumina o cotidiano de milhares de brasileiros que vivem a informalidade e buscam no microcrédito a saída para viabilizar seus pequenos e médios negócios. A partir de suas experiências na área do crédito popular, os autores João Cláudio Tupinambá Arroyo e Flávio Camargo Schuch relatam iniciativas e apresentam a conceituação de economia solidária, do microcrédito e do desenvolvimento sustentável.
Apresentação
João Joaquim de Melo Neto Segundo
Líder comunitário, educador popular, desenvolveu um sistema econômico comunitário, o Banco Palmas, que conta com uma linha de microcrédito alternativo (para produtores e consumidores), instrumentos de consumo local (cartão de crédito e moeda social), alternativas de comercialização (feira e loja solidária), além de uma escola para desenvolver e disseminar os princípios da economia solidária, a Palmatech, que promove localmente a geração de trabalho e renda, criando um mercado solidário e alternativo entre as famílias.
Quando recebi dos autores o convite para prefaciar este livro, respondi à mensagem eletrônica com uma brincadeira: “Será uma grande honra pra mim, um simples ‘peão’ do povo, prefaciar o livro de tão nobres excelências”!!! O tom de humor na verdade refletia bem um sentimento: minha militância cotidiana aproximou-me ao longo da vida das comunidades empobrecidas e distanciou-me do mundo acadêmico. Nunca havia sido convidado a prefaciar um livro.
Outra razão para meu entusiasmo é que conheci João Cláudio Arroyo em 2001, quando ele era coordenador do Banco do Povo de Belém do Pará, terra onde iniciei minha militância política, no começo dos anos 1980, lutando pela libertação dos presos do Araguaia. Já há 24 anos morando em Fortaleza, compartilhei com Arroyo muitas idéias sobre finanças solidárias e desenvolvimento local.
Comecei a ler este livro no exato momento em que o Brasil estava mergulhado em uma grave crise política, que entristeceu nosso povo e obrigou a nós, militantes, a perseverar na alegria e no entusiasmo. E foi com a mente e o coração cheios desses sentimentos que mergulhei na leitura.
Logo de início percebi que aqui estava uma preciosa fonte para revigorar a caminhada nestes tempos de trovoadas. O livro traz para o centro do altar a economia que é vivida cotidianamente pelo povo simples dos bairros, pelos desempregados, trabalhadores informais, biscateiros, camelôs, pequenos empreendedores e uma multidão de brasileiros que hoje ficam à “margem” do mercado formal e são tratados como secundários e perniciosos. É uma reflexão teórica sobre a economia que fervilha bem cedinho na bodega da Maria, na quitanda do Pedro, no mercado público, na feirinha do bairro, no boteco da esquina, nas praças públicas e nos becos da cidade. É um livro que consegue enxergar essa multidão que caminha muitas vezes no anonimato, mas que representa relevante fatia da economia brasileira. Esta economia popular e solidária é reconhecida pelos autores como uma realidade que faz pulsar a vida de mais de 50% dos trabalhadores de nosso país, garantindo maior circulação de riquezas e justiça social. Ela ganha destaque, se humaniza, e é mostrada como portadora dos sonhos e das utopias de uma geração que insiste em não desistir!
Mas essa economia que emerge do povo, de suas lutas e de seus gestos generosos, não começou agora. O livro vai buscar as origens da economia popular e solidária e caminha com ela ao longo dos séculos – em diversos continentes e em seus diversos formatos –, proporcionando uma descrição histórica dos vários momentos que ela percorreu, deixando a certeza de que a solidariedade, a justiça e a igualdade sempre fizeram parte da natureza e das lutas do ser humano.
Nos tempos atuais, onde “tudo vira moda”, é preciso estar “atento e forte” para que a economia popular e solidária não seja cooptada pelos interesses daqueles que sempre “surfam” nas lutas e nas bandeiras populares fazendo desta mas um nicho de mercado para o fortalecimento de seus processos de acumulação e riqueza
O caminho histórico que percorreu a economia solidária nos traz o alerta de que abraçá-la exige um compromisso político que tem desdobramentos práticos em nossas ações cotidianas: passa pelo reconhecimento da força e da necessidade do mercado informal para a sobrevivência de milhões de brasileiros, pela indignação com a concentração de renda, pelo reconhecimento e apoio às várias manifestações da economia popular (sistemas de trocas, créditos alternativos e outros), pela radicalização da democracia política em direção à democracia econômica, pela participação popular e pelo compromisso com a ética.
Em seu processo de construção, a economia solidária encontra-se com o desenvolvimento sustentável. Neste aspecto os autores, de forma corajosa, fazem uma série de reflexões para fugir do senso comum de que “crescimento e desenvolvimento” se nivelam. E sabemos de perto o quanto isso é uma falácia. A cidade onde moro, Fortaleza, é vista Brasil afora como um sonho de consumo. Uma bela cidade, de praias lindas e sol dourado. Se por um lado isso é verdade, existe também uma Fortaleza onde 47% da população dos bairros populares convivem com o problema da fome. Então não basta crescer, não bastam o PIB, as estatísticas, os números, os indicadores econômicos. Temos que ver as pessoas! Pensar o desenvolvimento sustentável remete à questão ambiental, às práticas de consumo solidário, às relações de afetividade, de amorosidade e centralização da vida como bem maior.
O livro nos provoca para repensarmos todo o nosso modelo de desenvolvimento e o marco legal que fundamenta nossa economia. Mostra como o atual modelo tem pernas curtas para chegar aos mais pobres e coração egoísta para aceitar dividir as riquezas. E deixa o alerta de que a mudança é tarefa do governo e da sociedade, e para tal é preciso ter coragem, ousadia e disposição para correr riscos. Autores:Antes de tudo, é preciso acreditar no poder transformador que vem dos trabalhadores e das trabalhadoras da economia popular e solidária e nas suas capacidades de assegurar outro modelo de desenvolvimento que garanta a sustentabildiade da vida humana.
E os cuidados que devemos ter com as armadilhas da sustentabilidade é outra grande reflexão que o livro nos oferece. Sustentabilidade de quê? Para quem? Por inúmeras vezes já escutei financiadores, consultores, analistas de projetos dizerem que determinadas ações da economia popular e solidária (um empreendimento solidário, a lojinha dos produtores locais, a feirinha o bairro, o clube de trocas com moeda social, o projeto de agricultura urbana, a escola de dança na comunidade) não são sustentáveis porque não tem uma relação favorável entre despesa e receita. Não dão lucro! Não geram excedente! Não têm como se manter no futuro! São de subsistência! Precarização das relações de trabalho! Insustentável! Sustentabilidade entendida desta forma vira números, PIB, balança comercial, não tem emoção, coração, relações sociais, vida humana, tesão!
No entanto, por esta ótica, uma grande fábrica que registra os funcionários, paga salário mínimo, explora os trabalhadores, entristece o coração e atrofia a mente do ser humano, é sustentável!!! Que diabo de sustentabilidade é essa???
Temos que despertar para esses valores e esses conceitos relacionados à sustentabilidade. A vida, o prazer, a felicidade humana são a grande sustentabilidade que deve reger a humanidade, submetendo e controlando a sutentabilidade econômica.
Por fim, não podia deixar de comentar o rico debate que este livro traz sobre o microcrédito e o crédito popular. Este é um campo apaixonante. Não somente pelos números, taxas, juros, aval, prazos, carência e amortizações. E sim pelo entendimento de que essas estratégias de financiamento da economia solidária e popular estão muito além de uma mera operação financeira/bancária. Elas são meios e não fim. São uma ferramenta para o desenvolvimento local, para o empoderamento das pessoas, para a organização política da comunidade.
O crédito popular como o entendemos é um instrumento de luta pela sociedade que queremos construir e não um produto desta sociedade desigual que aí está. É uma arma poderosa na construção de nossas utopias.
Fico por aqui. Nem sei se isso é um prefácio! Só posso afirmar que nas páginas a seguir existem reflexões profundas sobre o nosso dia-a-dia, com cheiro de povo, de economia que pulsa os bairros, que ri, chora, sangra, se emociona, e tem uma vontade danada de ser feliz.
Sumário
Prefácio – João Joaquim de Melo Neto Segundo
1. Elementos históricos da economia solidária
Economia solidária na Europa
O surgimento do cooperativismo no Brasil
O surgimento do sindicalismo no Brasil
Economia solidária no Brasil
Princípios da economia solidária
2. Desenvolvimento sustentável
Sustentabilidade – uma noção em disputa
Economia popular e solidária e o desafio da sustentabilidade
3. Economia popular e solidária
O que é economia
O conceito de popularX
O conceito de solidariedade
A economia popular
A economia popular e solidária
Miopia econométrica
As dimensões da economia popular e a proposta de um novo conceito
A importância da economia popular para a estruturação de um novo modelo de desenvolvimento
4. A questão do crédito
Microcrédito ou crédito popular?
Semântica
História
Significados
A teoria econômica
Disputa
Crédito popular
ANEXO 1 – O que é economia popular e solidária segundo o Fórum Brasileiro de Economia Solidária (FBES)
ANEXO 2 – Consensos e proposições do diálogo do Grupo de Trabalho Brasileiro de Economia Solidária para a Senaes (Secretaria Nacional de Economia Solidária)
5. Desafios e estratégias
Para o novo modelo de desenvolvimento – Uma alavanca
6. O Governo Lula e o crédito popular ou microcrédito
Posfácio – Todos são iguais no mundo das mercadorias – será? – Francisco de Assis Costa
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