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História e perspectivas da esquerda
Autores: REIS FILHO, Daniel Aarão; GARCIA, Marco Aurélio; FORTES, Alexandre (org.); ARANÍBAR, Antonio; BERGAMINO, Ariel; CASTRO, Nils; COLLOMB, Gérard; FINK, Leon; GORENDER, Jacob ; GOULD, Jeffrey; HOLDT, Karl von; LINDEN, Marcel van der; PONT, Raul; RAPOPORT, Mario; SILVA, Fernando Teixeira; WINN, Peter
Sinopse:

Autores brasileiros, latino-americanos, norte-americanos e europeus discutem temas como o papel histórico da esquerda na construção da democracia e no aprofundamento das noções de cidadania e direitos; a relação entre movimentos sociais e projetos políticos da esquerda em diferentes contextos históricos; as relações entre o debate programático, a construção partidária e as experiências de governo na trajetória da esquerda; a evolução histórica da idéia de socialismo e do significado a ela atribuído por diferentes grupos sociais.

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INTRODUÇÃO
O seminário internacional “História e perspectivas da esquerda” – ocorrido no anfiteatro do Departamento de História da Universidade de São Paulo entre os dias 13 e 15 de agosto de 2003 – foi uma iniciativa conjunta da Fundação Perseu Abramo e da Fundação Jean Jaurès (ligada ao Partido Socialista Francês), contando com o apoio do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (CeNedic-USP). Seu principal objetivo foi integrar a produção acadêmica dedicada ao tema com o depoimento de participantes de experiências políticas recentes em diversas partes do mundo.

Esse intercâmbio de experiências ocorridas em diferentes contextos históricos sempre fez parte do debate interno da esquerda mundial e teve papel decisivo na definição da identidade das diversas forças situadas nesse campo do espectro político. Obviamente, não se trata mais hoje de estabelecer modelos a serem reproduzidos ou evitados, mas de buscar, no conhecimento aprofundado sobre as diversas experiências, elementos que contribuam no processo de renovação do projeto político socialista. O balanço dos avanços e limitações, a reconstituição dos debates e dilemas vividos em cada sociedade e conjuntura específica são condições necessárias para tanto. Articular a produção historiográfica com o balanço político de experiências recentes de governo é fundamental para que essa temática possa ser revisitada com a qualidade necessária para o enfrentamento das questões colocadas para a esquerda no início do século XXI.

Nesse sentido, foram propostos aos participantes quatro eixos que nortearam as exposições e os debates:
• o papel histórico da esquerda na construção da democracia e no aprofundamento das noções de cidadania e direitos;
• a análise da relação entre movimentos sociais e projetos políticos da esquerda em diferentes contextos históricos;
• a relação entre o debate programático, a construção partidária e as experiências de governo na trajetória da esquerda;
• a evolução histórica da idéia de socialismo e do significado a ela atribuído por diferentes grupos sociais.

Na conferência inaugural do evento, Gérard Collomb (secretário-geral da Fundação Jean Jaurès e prefeito de Lyon) analisou as experiências de governo da esquerda francesa desde a década de 1980, as modificações que elas produziram no modo como a questão do socialismo é pensada e debatida dentro do Partido Socialista Francês e os desafios atuais enfrentados pelo partido.

Seguiu-se o painel “A experiência histórica da esquerda no Atlântico Norte”, que incluiu as apresentações “As metamorfoses da socialdemocracia” (Marcel van der Linden, do International Institute of Social History, Amsterdã), “O movimento operário norte-americano e as duas eras douradas mundiais” (Leon Fink, da University of Illinois at Chicago) e os comentários de Marco Aurélio Garcia (professor licenciado da Universidade Estadual de Campinas e assessor de Relações Internacionais da Presidência da República). Van der Linden apresentou um estudo comparativo da evolução histórica dos partidos socialdemocratas europeus, usando uma vasta bibliografia de estudos monográficos, estruturada em torno de três eixos: programas de governo, base social e formas organizacionais.

Desse modo, demonstrou como os grandes momentos de mudança nas orientações políticas desses partidos estão profundamente imbricados com transformações sociais profundas ocorridas nos países em que atuam e na Europa como um todo. Já Fink retornou à clássica questão sobre “por que não há socialismo (ou ao menos uma oposição socialista) nos Estados Unidos?”, examinando os elementos que explicam por que o movimento operário norte-americano, mesmo nos momentos históricos do seu apogeu, não caminhou no sentido da construção de uma força política própria. Ao mesmo tempo, realizou um balanço do legado histórico das lutas progressistas nos Estados Unidos e dos potenciais que ele apresenta para aqueles que se dedicam à defesa das causas populares e da justiça social naquele país e no resto do mundo. Analisando essas duas falas, Garcia sistematizou um conjunto de desafios colocados para a esquerda no atual contexto internacional e situou a perspectiva adotada pelo PT e pelo governo Lula diante deles.

O segundo painel foi dedicado ao tema “Socialismo, lutas sociais e participação política na história latino-americana”. A primeira apresentação foi “Observações sobre a trajetória da esquerda latino-americana”, por Nils Castro (Panamá), um panorama com ênfase nas dificuldades encontradas pelas forças progressistas da região, em diferentes conjunturas, na busca por construir um projeto político adaptado às suas particularidades. Seguiu-se a análise da experiência do governo Allende, cuja derrubada completaria 30 anos poucas semanas após o evento. Peter Winn, da Tufts University, reconstituiu os impasses vividos por Allende tomando como eixo de análise a distância entre os significados da “revolução pelo alto” (ou seja, a forma como a esquerda chilena pretendia criar o socialismo a partir de mudanças operadas no âmbito estatal) e da “revolução pela base” (ou seja, o modo como os setores populares encararam as possibilidades de transformação abertas pela existência de um governo de esquerda).

Jeffrey Gould, da Indiana University, analisou experiências da América Central, particularmente Nicarágua e El Salvador, com ênfase na dificuldade da esquerda em lidar com a questão da diversidade étnica e cultural das populações daqueles países. Concluindo o painel, Mario Rapoport, da Universidad de Buenos Aires, traçou um retrospecto da história da esquerda na Argentina e dos seus confrontos com o fenômeno que definiu os contornos da política do país no século XX: o peronismo.

O terceiro painel, “Revendo a trajetória da esquerda brasileira”, contou com a participação do veterano dirigente comunista e historiador Jacob Gorender e dos professores Daniel Aarão Reis Filho (Universidade Federal Fluminense), Fernando Teixeira da Silva (Universidade Metodista de Piracicaba) e Alexandre Fortes (Fundação Perseu Abramo). Gorender relatou didaticamente o que denominou “ciclo histórico do Partido Comunista Brasileiro”, iniciado em 1922 com a fundação daquele partido e encerrado na década de 1980, quando o papel que desempenhara como principal força política da esquerda brasileira se encerra com a ascensão do Partido dos Trabalhadores. Reis Filho realizou o mapeamento de um conjunto de tradições distintas que, a seu ver, devem ser consideradas ao se abordar a história da esquerda de uma forma ampla, incluindo a tradição cristã e a nacional-reformista, e criticou a abordagem historiográfica tradicional, que tende a subestimá-las ou ignorá-las. Silva apresentou um balanço das pesquisas realizadas nos últimos 20 anos no campo da história social que têm levado a uma reconsideração da forma como a relação entre os trabalhadores e o comunismo era tradicionalmente abordada tanto no debate acadêmico como no político. Já Fortes concluiu o painel analisando “O lugar do PT na história da esquerda brasileira” nos seus elementos objetivos (fatos que singularizam o partido em relação a outros segmentos desse campo do espectro político) e subjetivos (a forma como a idéia da “novidade histórica do PT” foi construída e reproduzida pela militância do partido).

O último dia do seminário foi dedicado ao tema “Experiências recentes da esquerda no poder”. Karl von Holdt, pesquisador do National Labour and Economic Development Institute (Naledi), ligado à Cosatu, central sindical da África do Sul, examinou a transição do apartheid à democracia e os desafios que as profundas mudanças sociais e políticas vividas pelo país representaram para a esquerda sul-africana. O ex-ministro das Relações Exteriores da Bolívia, Antonio Aranibar, realizou uma reconstituição minuciosa sobre a trajetória da esquerda boliviana, destacando o empenho recente em incorporar as questões étnicas como um elemento central na construção de um projeto nacional para o país. O historiador Ariel Bergamino, assessor político da presidência da Frente Ampla do Uruguai, desenhou um quadro das particularidades históricas do seu país e reconstituiu a trajetória recente da esquerda uruguaia, que a levou a tornar-se uma alternativa real de poder, fato recentemente consumado com a eleição de Tabaré Vázquez. Concluindo o painel e o seminário, o ex-prefeito de Porto Alegre, Raul Pont, apresentou o seu ponto de vista sobre os desafios colocados para a esquerda brasileira a partir das experiências recentes das administrações petistas e do cenário aberto pela eleição de Lula, enfatizando o papel da participação popular na mudança da relação entre sociedade e Estado.

Ao trazer ao público as valiosas contribuições apresentadas pelos painelistas do seminário, a Fundação Perseu Abramo espera contribuir para o aprofundamento e a ampliação dos debates sobre os caminhos a serem construídos na busca pela renovação e pela atualização do projeto socialista. Um processo no qual o delicado balanço entre os valores gerais – que orientam a luta de todos que assumem o compromisso com a tarefa histórica de superação do capitalismo – e as possibilidades e os desafios colocados para cada nação a cada conjuntura específica só pode ser alcançado por meio de uma apropriação crítica progressiva do patrimônio comum constituído pelas experiências da esquerda mundial. O ORGANIZADOR


Sumário

INTRODUÇÃO

I – A EXPERIÊNCIA HISTÓRICA DA ESQUERDA NO ATLÂNTICO NORTE
As recentes experiências da esquerda na França - Gérard Collomb
Metamorfoses da socialdemocracia européia (1870-2000) - Marcel van der Linden
Trabalhadores dos Estados Unidos e as duas eras douradas mundiais - Leon Fink
Pensar a terceira geração da esquerda - Marco Aurélio Garcia

II – SOCIALISMO, LUTAS SOCIAIS E PARTICIPAÇÃO - POLÍTICA NA HISTÓRIA LATINO-AMERICANA
As esquerdas latino-americanas: observações acerca de uma trajetória - Nils Castro
O Chile de Allende: socialismo democrático e revolução pela base (1970-1973) - Peter Winn
A esquerda centro-americana e o problema étnico - Jeffrey Gould
A crise argentina e as lições do passado - Mario Rapoport

III – REVENDO A TRAJETÓRIA DA ESQUERDA BRASILEIRA
O ciclo do PCB: 1922-1980 - Jacob Gorender
As esquerdas no Brasil: culturas políticas e tradições - Daniel Aarão Reis Filho
Breve história de erros e bodes expiatórios: PCB e trabalhadores (1945-1964) - Fernando Teixeira da Silva
Reflexões sobre o lugar do PT na história da esquerda brasileira - Alexandre Fortes

IV – EXPERIÊNCIAS RECENTES DA ESQUERDA NO PODER
Experiências recentes da esquerda no poder: o caso da África do Sul - Karl von Holdt
As esquerdas bolivianas: déficit democrático e étnico - Antonio Aranibar
O Mercosul e a integração da América Latina - Ariel Bergamino
Acreditar na participação popular para reconstruir a estratégia socialista - Raul Pont

Dados Técnicos

ISBN:2147483647

Páginas:256

Ano:2005

Edição:1

Idioma:português

Peso:256



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