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Mídia: Crise política e poder no Brasil

publicado em 15/08/2006

Dados técnicos
Editora: Fundação Perseu Abramo
ISBN: 85-7643-028-2
Páginas: 176
Ano: 2006
Edição: 1ª
Lingua: Português
Peso: 230 gramas

Autor: LIMA, Venício A. de

 

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Prefácio

Os estudos de Venício A. de Lima sobre a concentração da mídia e o coronelismo eletrônico são fundamentais para entender as deficiências da democracia brasileira. Quando o sistema de comunicação social de uma sociedade não consegue alcançar um mínimo de diversificação e quando a distribuição das concessões para a mídia eletrônica é viciada pela ilegalidade e pelos conchavos, ficam liminarmente comprometidas as condições essenciais para o equilíbrio institucional e o Estado de direito.

A crise política brasileira não é episódica, é contínua e não foi resolvida pela redemocratização. Ao contrário, foi até agravada porque, a partir de 1985, a distribuição de canais de rádio e tv passou a funcionar de forma ostensiva e regular como moeda de troca para a cooptação do Legislativo pelo Executivo.

Como conseqüência, parte do nosso sistema de comunicação social, e justamente aquela com maior penetração popular, perdeu sua independência e sua capacidade de funcionar soberanamente. Sucedem-se as temporadas de escândalos no Congresso mas o escândalo maior, orgânico, é a sobrevivência da inconstitucionalidade que permite aos congressistas – teoricamente encarregados de fiscalizar a distribuição de concessões – desfrutar do privilégio de serem concessionários de um serviço público. Atentado ao pudor, à isonomia entre os cidadãos e evidência de uma anomalia que põe sob suspeição todo o processo de distribuição de informações.

Ironicamente, foi no mandato de José Sarney, no primeiro governo dito democrático, que o fenômeno do coronelismo eletrônico ganhou dimensão e visibilidade convertendo-se numa das alavancas do processo de concentração da mídia. O paradoxo não é casual, revela uma deterioração que só a sociedade civil, o Judiciário e a imprensa – mas não a mídia – poderão estancar.

Venício A. de Lima dedica-se há alguns anos a desvendar esse emaranhado de ilicitudes, mas também em trabalhar para a sua extinção. O acadêmico laureado não se satisfaz com o pioneirismo de seus estudos teóricos, por isso empenha-se com igual disposição e garra cidadã em operar as ferramentas para combater a grande disfunção do processo de comunicação no Brasil.

Sem pluralismo na geração e na difusão da informação não existe uma verdadeira democracia representativa. E sem um arcabouço democrático confiável, torna-se quase bizantino o debate sobre a qualidade da informação e a objetividade das coberturas jornalísticas.

Alberto Dines, jornalista

Contra-capa
“Muitas das mais importantes crises políticas do mundo contemporâneo, desde a metade do século passado, têm como origem um escândalo político midiático. Isso é verdade no Japão, na Itália, na Inglaterra, nos Estados Unidos, na Argentina e também no Brasil. Nosso exemplo mais significativo, embora pouco estudado e lembrado como tal, talvez seja o escândalo político midiático (epm) que levou Getúlio Vargas ao suicídio em 1954. [...]

A crise política que o país viveu desde maio de 2005 certamente se enquadra nas características identificadas por Thompson como constituidoras de um escândalo político midiático. Ela não existiria se não fosse na e pela mídia. E o que pretendemos examinar, para além da missão investigativa do jornalismo, é como, muitas vezes, a exacerbação dessa missão por jornalistas e empresas de mídia provocou sérios desvios não só das regras elementares do exercício profissional – vale dizer, do ‘bom jornalismo’ – mas, sobretudo, dos princípios éticos básicos da profissão. [...]

Nosso argumento principal é que, antes mesmo da revelação pública das cenas de corrupção nos Correios, em maio de 2005, o ‘enquadramento’ da cobertura que a grande mídia fez, tanto do governo Lula como do Partido dos Trabalhadores (pt) e de seus membros, expressava uma ‘presunção de culpa’ que, ao longo dos meses seguintes, foi se consolidando por meio de uma narrativa própria e pela omissão e/ou pela saliência de fatos importantes.”

 

Texto da orelha do livro
Mídia: Crise política e poder no Brasil reúne sete textos escritos pelo professor e jornalista Venício A. de Lima entre 2004 e 2006. Quatro deles nunca foram publicados e os outros três foram reescritos e atualizados. Dividido em três partes, vários dos temas abordados no livro têm sido tratados pelo autor em artigos na revista eletrônica Observatório da Imprensa, da qual é colaborador.

Na Parte I, é abordada a relação entre mídia e política. O título do Capítulo 1 já deixa clara a forma como Venício A. de Lima analisa a cobertura da crise política: presunção de culpa. Ele utiliza o conceito de escândalo midiático de Thompson e, além de analisar a narrativa específica que foi construída pela mídia e casos gerais de omissão, saliências e distorções, mostra exemplos de coberturas específicas das revistas Veja e Época, do “Jornal Nacional” da TV Globo, dos jornais O Globo e Folha de S.Paulo e da imprensa como um todo.

No Capítulo 2, o autor revisita um texto no qual trabalha há anos sobre as relações da mídia com a política. São sete teses que vêm sendo desenvolvidas e atualizadas. No Capítulo 3 são analisados casos específicos de envolvimento direto da tv Globo com o nosso processo político. São casos documentados e de conhecimento geral (eleições no Rio de Janeiro em 1982, cobertura da campanha das Diretas Já e a “nomeação” de Maílson da Nóbrega para ministro da Fazenda de José Sarney).

Na Parte II, o Capítulo 4 trata especificamente da concentração da mídia brasileira, explorando a histórica ausência de regulação que permitiu a consolidação dos grandes grupos do país. E trata também da internacionalização desses grupos, que se tornou legal com a aprovação da Emenda Constitucional no 36. O Capítulo 5 analisa a questão dos políticos concessionários de radiodifusão e da proposta de legalizar a prática com uma mudança na Constituição.

Na Parte III, o Capítulo 6 faz uma análise da cobertura das eleições de 2002 pelo “Jornal Nacional”, explorando a retórica da responsabilidade social que passou a ser usada pelo programa noticioso. O Capítulo 7 discute provocativamente a velha questão sobre qual dos dois veículos é mais importante para a formação da opinião pública no Brasil: o jornal ou a TV.

 

 

Sobre o autor
Venício A. de Lima é sociólogo, jornalista e publicitário. Mestre, doutor e pós-doutor em Communications pela University of Illinois at Urbana–Champaign, onde trabalhou com James W. Carey, Thomas Guback e Clifford Christians. É também pós-doutor pela University of Miami–Ohio. Professor titular de Ciência Política e Comunicação da Universidade de Brasília (aposentado), foi fundador, primeiro coordenador e é pesquisador sênior do seu Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política (NEMP). Membro do Conselho de Acompanhamento da Programação de Rádio e Televisão da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados e da Comissão de Liberdade de Imprensa do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal. Articulista semanal da revista eletrônica Observatório da Imprensa, é autor de Comunicação e cultura: as idéias de Paulo Freire (Paz e Terra, 1981; 2a. ed. 1984); Comunicación y política en América Latina (Edição do Autor, 1993); Mídia: teoria e política (Editora Fundação Perseu Abramo, 2001; 2a. ed. 2004) e Comunicação e televisão – Os desafios da pós-globalização (Editora Hacker, 2004, com Sérgio Capparelli).
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Sumário

Prefácio – Alberto Dines

Parte I – Mídia e política
1 – “Presunção de culpa”: A cobertura da crise política de 2005-2006

Escândalos políticos midiáticos (epm)
A narrativa midiática da crise
Omissões, saliências e distorções
A presunção de culpa
Laços explosivos
Observações finais
Anexo 1
Anexo 2
Anexo 3
Anexo 4: A opinião privada tornada pública
Anexo 5: Opinião e o inconformismo antidemocrático
Bibliografia

 

2 – Revisitando as sete teses sobre mídia e política no BrasilMídia e política
Sete teses
Observações finais

Bibliografia

3 – TV Globo: 40 anos de intimidade com o poder
As eleições de 1982 no Rio de Janeiro
A campanha das Diretas Já em 1984
A nomeação do ministro da Fazenda do Presidente Sarney
Quatro hipóteses sobre o poder da Globo
Observações finais
Bibliografia

Parte II – A estrutura do sistema brasileiro de mídia

4 – Mídia no Brasil: Concentrada e internacionalizada
Um pouco de história
Concentração e internacionalização
Quadro 1 – Dez maiores agências de publicidade do Brasil: 1989-2004
Quadro 2 – Setores que anunciam menos/Setores que anunciam mais
Observações finais
Anexo 1 – Redes de tv (Anatel)
Bibliografia

5 – Parlamentares e radiodifusão: Relações suspeitas
Tabela 1 – Membros da cctci em 2003 que são concessionários
Tabela 2 – Membros da cctci em 2004 que são concessionários
Tabela 3 – Deputados que votaram na cctci em 2003 e são concessionários
Tabela 4 – Deputados que votaram na cctci em 2004 e são concessionários
Tabela 5 – Deputados que votaram a favor da renovação de concessão em que apareciam como sócios
Deputados e senadores
Tabela 6 – Deputados federais concessionários de radiodifusão
Tabela 7 – Senadores concessionários de radiodifusão
A pec 453/2005
Observações finais
Bibliografia

Parte III – Televisão versus Jornal

6 – “Responsabilidade social”: Nome novo para o velho oficialismo do “Jornal Nacional” – com Liziane Guazina
As explicações da Globo
A combinação de três fatores
A RS e o JN
Exemplos da prática jornalística com RS do JN
É preciso mudar para permanecer o mesmo
Bibliografia

7 – Jornal ou TV: Qual mídia é mais importante na formação da opinião pública brasileira?
Os jornais de temática nacional
Opinião pública
Observações finais
Bibliografia

Sobre o autor

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