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Detalhes do Livro

Retrato em branco e preto da nação brasileira
Autores: CAVALCANTE, Berenice; STARLING, Heloísa Maria; Gurgel; EISEMBERG, José
Sinopse:

Segundo volume da coleção Decantando a República: inventário histórico e político da canção popular moderna brasileira percorre o caráter mutável da idéia de nação: sátiras políticas, sambas de exaltação, canções de protesto, rocks ásperos, versos quilométricos de rap. Nestas diferentes leituras, a canção popular sugere sua vocação para um diálogo que atravessa as múltiplas matrizes de interpretação do Brasil.

Esgotado

Há certos livros que fazem história pela celebração de inteligência que há neles e pela irradiação cultural que são capazes de cumprir. Decantando a República: inventário histórico e político da canção popular moderna brasileira é um desses livros raros.

É um livro que decerto fará história porque, em primeiro lugar, soube inscrever-se nela. Desde os anos 1960, quando as promessas de encontro na sociedade brasileira se fizeram tragédia e exílio, não se promove um diálogo tão amplo, plural e instigante entre dois complexos culturais fortes: a erudição universitária brasileira e o universo das canções populares.

Que o território desse encontro seja o das canções brasileiras revela a anima da obra. Não se tratou de reverter para a análise especializada, disciplinada ou acadêmica o tumulto, a desordem e a harmonia que há nas canções, mas de reconhecer nelas a imaginação do vivido e do que se quer viver no Brasil. Todo brasileiro tem o seu repertório íntimo de canções. E também os pensadores: os pré-socráticos e a “sabedoria à distância das ortodoxias” das canções populares; a felicidade em Rousseau, Cartola e nas utopias líricas de Chico Buarque; Bakthin, o “cômico-sério” e a “opção franciscana pelo ‘baixo’” de Noel Rosa; Lupicínio e os “poetas conselheiros das paixões”, “libertários e moralistas” ao mesmo tempo; Dante, Maquiavel, a Fortuna e o tempo, “senhor tão bonito”, nos versos de Caetano.

Em segundo lugar, este livro fará história porque estabelece de modo definitivo a música brasileira como “o mais bem-sucedido discurso sobre a res publica entre nós”. Ela é, demonstram os ensaios, o nosso patrimônio comum em uma sociedade marcada pela força dos particularismos, a senha de nosso trânsito para a modernidade “sem conferir a ela uma positividade irrestrita, sem dela comprarmos apenas o lado solar”. Território de encontro das raças, das regiões, das classes, dos credos e dos Eros, porções inteiras de nosso vivere civilis, restos de delicadezas quase perdidas.

Assim como se tornou irrefutável a crítica ao populismo ingênuo com suas sínteses apressadas e artificiais de povo e nação, este livro, em seu pluralismo de vozes, torna insustentável a crítica também ingênua mas ainda canônica do populismo, com suas celebrações da modernidade cosmopolita e seus “sentimentos de bastardia”. Não há pureza nas origens: o samba ocupou a cena pública por casar o movimento dos criadores que o expandiram para além da “rigidez devota de sua ancestralidade negra” e dos intelectuais populares, prolongando nesta medida a revolução dos modernistas de 1922. Há reinvenção original das relações entre o público e o privado: como se o homem cordial, na própria genealogia dos Buarque, Sérgio e Francisco, sofresse um deslocamento que pode ser virtuoso. A nação que se canta, se ufana, mas também se reconhece degredo: a esperança, “guardada na caixa de Pandora”, é equilibrista. Acolhem-se os párias, do malandro ao marginal: a pátria é paratodos.

Mas este livro fará história também por uma outra razão: por seus topos de assombro e de beleza. O Nordeste evocado nas canções por Francisco de Oliveira, os camburões “navios negreiros” de nossas cidades de Luiz Eduardo Soares, “Malandro? Qual malandro?” na voz comovida e perplexa (como “num trecho do Diário de Jean Genet”, comentam os organizadores do livro) de Wanderley Guilherme dos Santos. Enfim, as fotos de um belo rascante revisitam o Brasil através do olhar das canções.

Os três volumes deste livro são para serem lidos, no espírito das canções, na cumplicidade das amizades, nas afinidades eletivas dos amantes, nas rodas dos bares e — por que não? — nas rodas de samba e nas salas de aula.

Juarez Guimarães Professor de ciência política da UFMG

Dados Técnicos

ISBN:2147483647

Páginas:174

Ano:2004

Edição:1

Idioma:portuguesa

Peso:370



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