Foi minha intenção mostrar ao longo deste livro que o ‘dogmatismo’ teórico identificado por alguns em Rosa Luxemburg é matizado por uma defesa apaixonada da ação espontânea das massas populares, a única que pode construir coletivamente um espaço de não sujeição ao capital. Porém, é forçoso reconhecer que Rosa foi dogmática num ponto – na crença de que a superação do capitalismo (que ela identificava com socialismo) representava a única alternativa à queda da humanidade na barbárie. Essa idéia ela nunca abandonou.”
A autora
A qualidade excepcional do livro de Isabel Loureiro resulta não só de seu conhecimento profundo da obra e da vida de Rosa Luxemburg, como da vasta literatura secundária, mas também e sobretudo de sua capacidade de repensar criticamente a relação entre teoria marxista e prática revolucionária.
O que ela nos oferece não é outra biografia de Rosa Luxemburg – já existem suficientes obras nesse terreno –, mas um livro filosófico sobre o pensamento daquela que Franz Mehring considerava o melhor discípulo de Marx.
Partindo das luminosas intuições do ensaio “Rosa Luxemburg, marxista” do jovem Lukács (em História e consciência de classe, 1923), Isabel Loureiro nos restitui a coerência intelectual e política da mais fascinante e dramática figura do movimento socialista internacional. Situando a originalidade de Rosa Luxemburg e a força singular de sua concepção do marxismo na idéia da criatividade histórica dos oprimidos, o livro não deixa de apontar para os dilemas e as tensões que implicam necessariamente essa tentativa de unificação radical entre a teoria e a prática.
Sem ocultar as críticas lúcidas e proféticas de Rosa Luxemburg aos aspectos autoritários do bolchevismo, Isabel Loureiro evita as armadilhas liberais ou social-democratas que tentam fazer da fundadora da Liga Spartakus uma antibolchevique – ao pôr em questão as medida antidemocráticas dos primeiros dirigentes soviéticos, Rosa Luxemburg situa-se explicitamente numa perspectiva de solidariedade ativa com a Revolução de Outubro de 1917. Outro aspecto pouco explorado da obra de Rosa Luxemburg que este livro aborda de forma inteligente é seu interesse pela comunidade primitiva – evitando a visão linear da história das filosofias evolucionistas do progresso, ela afirma a existência na história da humanidade de uma unidade entre passado e futuro.
Sem cair na apologia ingênua do primitivismo, Rosa Luxemburg acredita que os “primitivos” têm algo a ensinar aos “civilizados”: o comunismo... Não é por acaso que este livro aparece no Brasil hoje. Sempre existiu na cultura da esquerda brasileira uma corrente “luxemburguista”, mas até há poucos anos ela era relativamente marginal. Isso começa mudar com a fundação do Partido dos Trabalhadores, cujo primeiro aderente, simbolicamente, foi Mário Pedrosa, o mais conhecido representante dessa corrente, desde os anos 1940. Muitos dos intelectuais e dirigentes do novo movimento reclamam pela herança de Rosa Luxemburg, enquanto se observa a presença de alguns aspectos essenciais dessa herança – a democracia socialista, o élan antiburocrático e libertário, a busca de uma alternativa à social-democracia e às formas autoritárias do comunismo – na nova cultura socialista do Brasil. E por que Rosa Luxemburg hoje?
Com a queda do Muro de Berlim não assistimos ao “fim do socialismo” e à “morte do marxismo”? O que morreu, nestes últimos anos, era uma caricatura burocrática que tinha pouco a ver com o socialismo e o marxismo da fundadora do Partido Comunista Alemão. Em 1915, Rosa Luxemburg resumiu o dilema de nossa época com a expressão “socialismo ou barbárie”. Depois de um século em que predominou a barbárie moderna das guerras de extermínio total, e num momento histórico em que voltam a ressurgir os fantasmas mais sinistros do passado (nacionalismo, xenofobia, racismo, fascismo), talvez possamos encontrar, no socialismo internacionalista, revolucionário, democrático e humanista de Rosa Luxemburg um ponto de partida para sonhar com o socialismo do século XXI. À condição de não esquecer que, como dizia Baudelaire, a lição deve ser a irmã do sonho.
Michael Löwy
Dados Técnicos
ISBN:2147483647
Páginas:348
Ano:2004
Edição:2
Idioma:portuguesa
Peso:410
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