Nos últimos três anos, o jornalista Gilberto Maringoni estudou o emaranhado e conflituoso processo político venezuelano. O resultado é um livro-reportagem escrito num estilo ágil e envolvente, que trata dos enfrentamentos entre governo e oposição e da atuação da imprensa como fonte de desestabilização institucional. Rico em dados e informações, ancorado em farta e variada bibliografia e fruto de inúmeras entrevistas com os principais personagens envolvidos, tanto do governo quanto da oposição, este livro faz um minuncioso levantamento do que está em jogo e busca decifrar as opções colocadas para o futuro.
Apresentação
Era uma vez um país “democrático”, com eleições ao longo de várias décadas, com dois partidos – um social-democrata, o outro democrata-cristão – que se alternavam no governo, com sindicatos, imprensa privada e a maior renda per capita da América Latina.
Acontece que essa “democracia” era uma ficção. Vivia da farra do boom petroleiro. Uma elite política e sindical corrupta, estreitamente aliada à grande mídia, promoveu o maior processo de corrupção que o continente já conheceu, apropriando-se das milionárias rendas do petróleo sem que o país tivesse se aproveitado em nada dessa riqueza para se industrializar, para construir sua infra-estrutura econômica, para dar melhores condições de vida para a massa miserável da sua população.
Alternaram-se social-democratas e democratas-cristãos, dilapidando os bens públicos, privatizando pela via dos fatos a produção do petróleo, gerando um sistema bancário que faliu fraudulentamente e levando a que um dos seus presidentes social-democratas sofresse o mesmo destino de Fernando Collor, o impeachment, que o levou ainda à prisão.
Em pouco tempo o castelo de cartas do sistema político ruiu e, com ele, os dois partidos tradicionais. Nas eleições presidenciais o candidato favorito era uma ex-Miss Universo, prefeita de um bairro chique de Caracas, financiada pelos banqueiros exilados em Miami depois da sua falência espetacular.
Foi nesse momento que surgiu uma outra candidatura outsider: a do ex-oficial do exército Hugo Chávez.
O governo de Chávez constituiu-se numa das tantas novidades da rebeldia latino-americana contra os padrões neoliberais, de que a Venezuela teve a felicidade de se poupar. Vítima da ditadura do monopólio da grande mídia privada, o governo de Chávez tornou-se a maior alavanca à organização autônoma do povo venezuelano, expressando publicamente uma polarização entre pobres e ricos – não promovida por Hugo Chávez, cujo mérito é permitir a expressão organizada dessa polarização, resultante do capitalismo petrolífero da Venezuela.
O livro de Gilberto Maringoni, a melhor obra publicada até aqui sobre o tema, torna-se uma leitura indispensável para os que buscam – como os brasileiros – sair do círculo de ferro do neoliberalismo. Nele revela-se cruamente o que significam fenômenos como a “liberdade de imprensa”, identificada com “imprensa privada”; a “sociedade civil”, utilizada pela oposição oligopólica para propagar suas teses neoliberais; o golpe de Estado, aceito por governos que se pretendem democráticos, quando lhes convêm. A Venezuela passa sua história a limpo, da ficção à realidade.
Por isso tornou-se um lugar privilegiado da redefinição obrigatória do que é um sistema democrático de governo. Quem estiver preocupado com os destinos da democracia, da justiça social e da soberania dos povos no continente, tem na experiência brilhantemente relatada por Maringoni o melhor material de leitura e discussão.
Emir Sader
Sociólogo, professor da Universidade de São Paulo e coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Sumário
Apresentação
Mapa da Venezuela – Divisão político-administrativa
Mapa pictográfico de Caracas
Venezuela: governo, administração e economia
PARTE I – INTRIGA
O onze de abril
Cenas de uma atípica conspiração. Como derrubar um presidente, com a mídia na mão.
O golpe dentro do golpe
Pedro Carmona, o empresário que mandou, desmandou e desabou.
Que governo é esse?http://www.efpa.com.br/telas/produtos/detalhes.asp?Id_Produto=169&ID_Familia=1
O exemplo do Chile de Allende: reconstruindo a institucionalidade.
Chávez e a economia
O cauteloso programa econômico da Revolução Bolivariana.
Quem se habilita
Mudança de rota: as 49 leis que provocaram a ira das classes dominantes.
PARTE II – PETRÓLEO
Yes, nós temos petróleo
Um país pobre e sem importância conhece a prosperidade instantânea.
Surgem os partidos
O ouro negro articula as instituições, a vida política e faz e desfaz presidentes.
Um pacto para moldar o país
1958, fim da ditadura: a democracia perfeita com o povo de fora. Ascensão e queda da Venezuela petroleira.
Dias de fúria
A grande ruptura de 1989: o Caracazo. Centenas de mortos, crise e bancarrota. A carruagem vira abóbora. Ladeira abaixo
Depois da tempestade: Carlos Andrés Pérez, um governo que se arrasta.
Às armas, camaradas!
Caminhos e ações da esquerda venezuelana, entre a guerrilha e a vida legal.
Conspirando e aprendendo Hugo Chávez e a insatisfação nos quartéis.
“Por enquanto”
As tentativas de golpe em 1992.
Na lona
Os planos dos militares rebeldes e a queda de Pérez.
Pedras no caminho de Miraflores
A antipolítica, o fenômeno Chávez e as eleições de 1998.
PARTE III - PODER
Vozes da oposição
Petkoff, Fedecámaras e CTV: semelhanças e diferenças entre os antichavistas.
Beldades e paralisações
O paro nacional de 2002 e os prejuízos para a economia.
Intelectuais, artistas e revoluções
O governo e o mundo da cultura. Há mesmo uma revolução em curso?
O pai da Pátria Simon Bolívar e a dinâmica política chavista.
Inventos e intentos
Para onde vai a Venezuela?
Cronologia
Bibliografia
Dados Técnicos
ISBN:2147483647
Páginas:248
Ano:2004
Edição:1
Idioma:portuguesa
Peso:270
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