Teoria e Debate nº 10 publicou uma entrevista com o companheiro Valério Arcary, membro do Diretório Nacional do PT, sobre a Convergência Socialista, tendência da qual é um dos principais dirigentes. No momento daquela entrevista, no início deste ano, o que estava em debate era a permanência ou não da CS no PT. Felizmente, parece que esta discussão está superada, a partir da realização de uma conferência em que a CS decidiu se engajar a fundo na construção do PT e acatar a regulamentação das tendências internas do partido, e do reconhecimento pelo Diretório Nacional da CS como tendência interna.
A solução desta questão permite que façamos outra discussão: a de qual a contribuição da CS para a construção do PT, e mais especificamente das suas posições políticas. E não se trata mais de colocar a CS na berlinda, mas de um debate que deve ser feito entre todas as correntes do partido e no conjunto dos petistas.
Nesta carta quero polemizar com um aspecto das colocações do Valério na entrevista, que é sua apreciação do conjunto das tendências trotskistas (ou que se reivindicam da tradição da IV Internacional) e da própria CS neste contexto. Nesta questão, acho que Valério fez afirmações completamente absurdas e fugiu fortemente à realidade.
De início, Valério diz que existem fundamentalmente dois agrupamentos que se reivindicam da IV Internacional: o Secretariado Unificado, SU (com o qual se identifica a tendência interna Democracia Socialista) e a Liga Internacional dos Trabalhadores, LIT (com a qual se identifica a CS). A rigor, temos de considerar um terceiro agrupamento, que Valério cita num segundo plano: o Comitê Internacional de Reconstrução, CIR, com o qual se identifica a tendência interna O Trabalho.
Para explicar as diferenças entre eles, Valério diz que o SU "articula aquilo que seriam os trotskistas europeus", e que a LIT constitui "a esmagadora maioria do trotskismo latino-americano". E que enquanto na Europa "a classe trabalhadora manteve-se organizada durante décadas por trás dos partidos comunistas e social-democratas", o que representou "uma pressão tremenda" sobre os trotskistas; "o trotskismo latino-americano ( ... ) foi beneficiado. O proletariado latino-americano lutou nos últimos quarenta anos muito mais do que o europeu." A partir desta base, o agrupamento em torno de Nahuel Moreno (hoje, a LIT) "conseguiu transformar o trotskismo numa corrente solidamente implantada dentro do proletariado argentino", enquanto "infelizmente, o trotskismo europeu se esterilizou. Sempre teve uma influência muito grande, mas fundamentalmente a partir de círculos intelectuais. Não há país onde não haja trotskistas com enorme influência em todas as universidades e na imprensa, mas é um trotskismo frágil nos sindicatos. Há uma grande tradição do trotskismo na Sorbonne, infelizmente ela não existe na Renault." Por outro lado, "na Argentina não há uma grande tradição na universidade mas há em todo o centro industrial de Buenos Aires." E destas diferenças na implantação operária nascem diferenças nas posições políticas, com o "trotskismo europeu" sofrendo pressão da social-democracia e do stalinismo e os argentinos se beneficiando da força do proletariado.
Apresentar as coisas desta maneira pode ser muito conveniente para a LIT, porém este quadro é tão absurdo e tão distante da realidade que cabe a pergunta de como um militante inteligente e bem-informado como Valério pode ter dito isto.
Comecemos com a presença geográfica das três principais correntes que se reivindicam da IV Internacional. O SU é que tem maior diversificação na sua existência, reunindo forças significativas (significativas em relação às forças de esquerda revolucionárias) na Europa e na América Latina, e com presença também na Ásia e na África. O CIR se baseia hoje em dois países, a França e o Brasil. E a LIT tem uma presença importante (mais uma vez, importante na escala da esquerda revolucionária) na Argentina e no Brasil, e em outros países da América Latina, como o Paraguai, com presença muito mais reduzida na Europa. A afirmação de que a LIT representa a "esmagadora maioria do trotskismo latino-americano" é abusiva, e significa ver nosso continente a partir da Argentina. No Brasil, por exemplo, se tomarmos como base a presença de delegados no 7º Encontro Nacional do PT, a DS tinha muito mais representantes do que a CS (mesmo se incluirmos os delegados do RJ, impugnados, e que favoreciam a CS). Se tomarmos outro critério, que é o número de dirigentes da CUT, DS e CS mais ou menos se equivalem. No terceiro grande país da América Latina, o México, a organização amplamente hegemônica no trotskismo (e na esquerda socialista revolucionária) é o PRT, vinculado ao SU. No Uruguai, vizinho- à Argentina, a LIT não está presente, e a organização trotskista existente é o PST, vinculado ao SU.
Mas ainda mais absurda é a tese de que o "trotskismo europeu" é uma corrente "com enorme influência nas universidades e na imprensa", que há "uma grande tradição de trotskismo na Sorbonne" etc. Infelizmente, não é assim. A não ser que consideremos o movimento estudantil em 1968 e nos anos seguintes como expressão do "peso nas universidades" - e mesmo nesta época o trotskismo, embora fosse importante, era minoritário. Hoje, apesar de o trotskismo ter algumas figuras intelectualmente respeitadas, como Ernest Mandel ou Pierre Broué (que após ter sido excluído do CIR não se define mais como trotskista), o panorama intelectual europeu é dominado pelo pós-marxismo ou pelo antimarxismo. E se algumas organizações trotskistas têm uma força militante, é a partir da presença em sindicatos ou em movimentos como o antimilitarista, o de mulheres, o ecológico. Uma presença em geral minoritária, mas muito menos minoritária do que a presença intelectual (infelizmente é esta a realidade).
Quanto à "sólida implantação no proletariado argentino" da LIT, para não fugirmos da realidade, é importante também qualificá-la melhor. O MAS (organização da LIT) é o mais forte partido de esquerda na Argentina - fato que alegra não apenas os trotskistas como os revolucionários em geral -, mas a hegemonia no movimento operário ainda está com o peronismo. Infelizmente.
Não, para analisarmos as diferenças entre as correntes trotskistas, não podemos adotar o esquema simples de "europeus intelectuais e pressionados pela social-democracia e pelo stalinismo" (embora naturalmente estas pressões existam) e "latino-americanos implantados no proletariado" (implantação que existe, embora minoritária, e não só da LIT). É bem mais realista dizer que sempre conviveram no trotskismo pressões no sentido da adaptação a outras correntes mais fortes, mas também tendências sectárias; e que encontrar o equilíbrio que representa a defesa das posições fundamentais do marxismo revolucionário, sem cair no sectarismo, sempre foi uma tarefa difícil. Na minha opinião, o SU tem conseguido levar a cabo da melhor maneira esta tarefa, enquanto a LIT tem freqüentemente caído em posições sectárias (da qual é um exemplo a posição sobre a Nicarágua). Espero que tenhamos condições, agora que estamos todos mais próximos pelo engajamento comum na construção do PT, de fazer melhor esta discussão.
João Machado
São Paulo - SP
Teoria e Debate nº 11 publicou o artigo "Adeus às armas?", do companheiro Paulo Vannuchi. Concordo com grande parte dos argumentos ali desenvolvidos; além disso, aquele texto prova que é possível tratar com simplicidade e clareza temas difíceis e complexos.
Contudo, Vannuchi afirma que a tese apresentada pela Articulação ao 7º Encontro Nacional defende a idéia da "democracia como valor universal".
Como participei, juntamente com o companheiro Vannuchi, da comissão que redigiu a versão definitiva daquela tese, me sinto na obrigação de fazer o seguinte reparo: o texto apresentado pela Articulação, em sua última versão, que foi distribuída diretamente aos delegados, afirma que a democracia é "um valor estratégico", agora e no processo de construção do socialismo.
Mais adiante, a tese da Articulação diz que "nós entendemos que a luta pela democracia assumiu ao longo da história um conteúdo universal, ao sair das mãos da burguesia para ser empunhada pelos trabalhadores e, das mãos destes, na condição de conquista da humanidade".
Numa terceira passagem, a tese fala que "a emancipação dos trabalhadores exige a radicalização da democracia, contra a burguesia, num mundo socialista. Isto significa que só haverá real democracia no socialismo, e que não haverá socialismo sem democracia".
No meu entender, o raciocínio desenvolvido naquela tese é o seguinte: a democracia que temos no Brasil não é universal, não é igual para todos. Nem na lei, que faz com que alguns sejam mais iguais que os outros, nem na prática, onde a falta de democracia social e econômica faz da democracia política algo relativo.
O fato de a democracia que temos não ser universal (para todos) não quer dizer que ela é inútil para os trabalhadores. Ao contrário. A luta dos trabalhadores é responsável por tudo o que há de verdadeiramente democrático, universal, para todos, na democracia brasileira. E estas conquistas (contra a burguesia e ameaçadas cotidianamente por ela) estão na base de muitas outras vitórias.
Apesar de tais conquistas, a democracia existente no Brasil persiste desigual, restritiva, particular, para poucos ... burguesa. Isso não nos permite como lembra a tese, noutra passagem - "identificar a noção de democracia com democracia burguesa". Afinal, se é verdade que o capitalismo impõe restrições de todos os tipos à democracia, é verdade também que a luta democrática dos trabalhadores busca dar à democracia um conteúdo universal, para todos. Logo, não podemos identificar, igualar, confundir estes dois "tipos" de democracia, seja dizendo que toda democracia é burguesa, seja dizendo que qualquer democracia é "universal".
A democracia que os trabalhadores querem conquistar é universal, para todos, igualitária socioeconômica e politicamente. E só os trabalhadores podem lutar de verdade por uma democracia universal, porque só eles não têm nada a perder com isto.
Por isso é que podemos dizer que só haverá real democracia no socialismo, e que não haverá socialismo sem democracia. Poderíamos acrescentar ainda que a luta pela democracia é permanente; e que enquanto a sociedade estiver dividida em classes sociais, mesmo a mais ampla democracia não será universal, ainda não será para todos.
O espaço da seção de cartas não me permite desenvolver mais o que me parece ser a visão expressa na tese da Articulação ao 7º Encontro Nacional. Mas acho importante fazer este reparo, lembrando que as condições em que tal tese foi elaborada não permitiram que se fizesse o debate necessário acerca desta e outras formulações.
Valter Pomar
São Paulo - SP
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