Resposta a Apolônio
No último número de Teoria & Debate (nº9), o companheiro Apolonio de Carvalho publica um artigo intitulado Momento de Exclusão, onde diz que "há correntes políticas que por si mesmas se revelaram corpos estranhos no interior do PT". Entre elas ele cita a Convergência Socialista. E propõe que "adreferendum das instâncias mais altas, a Comissão Executiva Nacional deve, a curto prazo, tornar pública a sua exclusão das nossas fileiras". E esclarece; "no interior do PT, a consulta aos militantes seria encaminhada, posterior e normalmente, por nosso Diretório Nacional".
Considerando o conteúdo do seu artigo, e em respeito à trajetória do companheiro Apolônio, resolvi escrever esta resposta.
Em primeiro lugar, quero esclarecer que o companheiro merece todo o nosso respeito. Apolonio talvez seja um dos poucos veteranos com experiência internacionalista nas nossas fileiras. É um militante que uniu sua vida ao destino da classe trabalhadora mundial, combatendo na Guerra Civil Espanhola e na resistência ao nazismo na França. Essa história de vida, esse testemunho que ele deixa aos mais novos, para nós tem uma enorme importância, já que isso é muito raro na esquerda brasileira. Mas discordo profundamente do artigo dele.
O Apolônio faz uma série de observações que unem a Convergência Socialista a episódios e setores nos quais nós não temos nenhuma responsabilidade. E as duas únicas críticas concretas do seu artigo à Convergência são as seguintes:
Em primeiro lugar, ele cita um documento de 1983 que fala sobre o "entrismo" dentro do PT, e o atribui à Convergência Socialista. Acontece que esse episódio foi esclarecido há mais de sete anos dentro do partido, no Encontro Nacional, quando se abriu uma discussão sobre o documento. Nós, naquele momento, observamos que não era um documento da nossa corrente e o assunto ficou resolvido.
Então, façamos a seguinte comparação: no nº6 dessa revista, foi publicada uma entrevista do Apolônio e sua esposa. Nela, em determinado momento, tentando explicar porque o movimento de 1935 ficou restrito aos quartéis e não se uniu a uma mobilização popular, ele afirma: "com a decretação da ilegalidade da Aliança Nacional Libertadora, não havia mais contato com a burguesia". Agora, vejamos que curioso: no nº8 da Teoria & Debate, há uma carta do Apolônio, com a qual ele esclarece que teria dito: "com a decretação da ilegalidade da Aliança Nacional Libertadora, não havia mais contato com a sociedade". Então, entre a primeira declaração e a segunda, há uma grande diferença. Não havia mais contato "com a burguesia" e não havia mais contato "com a sociedade". Se nós fossemos fazer uma polêmica de má fé, tomaríamos a primeira afirmação do Apolônio. Mas, evidentemente, não seria uma discussão séria, leal, porque depois o Apolônio fez uma correção importante.
No entanto, este é o método que o Apolônio utiliza conosco, ressuscitando um episódio enterrado há sete anos. A segunda crítica concreta que o Apolônio nos faz é que a Convergência Socialista teria convocado uma greve geral em janeiro de 1990. Nesse caso, o Apolônio está se referindo a uma nota publicada na época na Folha de S. Paulo, que atribui essa suposta convocação ao então vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e militante da nossa corrente, companheiro Oliveira. Ora, todos nós que militamos no movimento sindical e popular sabemos como inúmeras vezes alguns profissionais da imprensa utilizam a mídia para estabelecer confusão. Foi o que fizeram com o Oliveira. Eu esclareci o episódio pessoalmente com o Meneguelli e o assunto ficou encerrado. No entanto agora ele ressurge. Ressurge o documento sobre o suposto "entrismo" da CS e ressurge a suposta convocação, pela Convergência, de uma greve geral política em janeiro de 1990, coisa que nós não fizemos.
Mais adiante, lemos o seguinte no artigo do Apolônio: "alguns observadores políticos adiantam conclusões que soam como advertência: 'a Lula cabe arrumar a sua retaguarda. É a alusão aos grupos radicais que se infiltraram no partido, desde que ele se apresentou como momentânea opção legal pelo socialismo. Outro analista político lembra que esta citação do artigo do Apolônio se refere, entre outras, à Coluna do Castelo do Jornal do Brasil de 12/12/89.
Isto coloca um grave problema de método. Nós achamos lamentável fazer uma polêmica política dentro do partido baseado em comentários de analistas da imprensa burguesa. Evidentemente, existe uma política da burguesia no sentido de expurgar do PT as correntes da esquerda socialista. Os articulistas, os editorialistas insistem em que o PT expulse sua ala esquerda. Essa é uma argumentação externa ao partido. São os inimigos de classe tentando incidir dentro dos partidos dos trabalhadores, dentro dos partidos de esquerda, para estabelecer a cisânia. É terrível que esses argumentos sejam transportados por nós mesmos para dentro do partido, que nós sejamos os atores de uma polêmica que nos é imposta de fora. É um método lamentável.
Na verdade, o conteúdo fundamental, a raiz desta discussão revela-se em outras passagens do artigos do Apolônio, como as seguintes: "Há ainda milhares de associações de pequenos e médios empresários temerosos de uma esquerdização do país. (...) Os que deram seu voto a Collor não o fizeram porque nele depositassem suas esperanças, mas por temor ao outro candidato. (...) As correntes de esquerda dificultam ainda o avanço para a política de frentes, inclusive no tocante às alianças fundamentais". Estas três citações seguidas do artigo demonstram que o verdadeiro conteúdo da polêmica é a discussão sobre a política de alianças. A presença da ala esquerda no PT seria, então, um obstáculo à construção dessas alianças. Por quê? Porque para o Apolonio: "a democracia é agora o problema chave primordial na vida política do país". E assim fica claro o núcleo central da nossa diferença política com o Apolônio e, por isso, temos que precisar exatamente por que a democracia seria agora o "problemas chave primordial".
Faço, então, algumas citações que não são da Convergência, que são afirmações interessantes para refletirmos e que expressam opiniões com as quais concordamos. A primeira é de D. Pedro Casaldáliga, que declarou recentemente ao Jornal dos Sem-Terra: "é evidente que não são democracias do povo nem a democracia cristã da Guatemala, nem as democracias formais da Colômbia e do Brasil". E Frei Betto, na mesma edição do Jornal dos Sem-Terra, declarou: "cedeu-se à ilusão de acreditar na democracia como valor universal quando, de fato, ela é incompatível com uma sociedade desigual, cujas regras democráticas só merecem respeito quando não ameaçam os donos do poder", Quem diz isso seguramente deve concordar conosco em que o "problema chave primordial" da vida do país é a fome, a miséria e o desemprego mantidos, também, por esta "democracia" que aí está..
Quando se fala de "democracia como valor universal" na sociedade, não estão falando abstratamente, estão falando do regime político que há no Brasil. Não é uma discussão teórica e ideológica. É esta "democracia". Citei o Frei Betto porque aí está o núcleo da diferença, e porque daqui decorre, para o Apolonio, a idéia da política de alianças.
Em seu artigo, o companheiro afirma e reivindica que "o PT tem o mesmo caráter policlassista e a mesma política que teve a Aliança Nacional Libertadora, que foi o teste inicial da política das frentes populares em nosso país". O problema é quem elaborou a política das frentes populares? Quem é o responsável pela política das frentes populares? Foram o Partido Comunista Brasileiro e a III Internacional dirigida por Stalin. Essa é a origem da "frente popular", uma política que trouxe tragédias enormes para o movimento operário internacional, durante os anos 30 e no Chile dos 70.
Para nós, o PT não tem nenhuma continuidade com a Aliança Nacional Libertadora. Ao contrário, a existência do PT é a negação de toda a política do PCB. Porém, a reivindicação que o Apolônio faz da ANL revela que suas concepções políticas não romperam completamente com esta tradição. Ele mesmo confessa isso, na citada entrevista, quando responde como se deu a ruptura com o PCB: "o stalinismo não estava em questão. Claro que a inércia dos métodos de mandonismo, de recusa às contradições e às lutas internas, persistiam camufladas, mas o stalinismo não era o problema fundamental do partido. O problema fundamental era a linha política do sistema de alianças e do caminho privilegiado da transição pacífica".
Para o Apolônio, o stalinismo se resume aos "métodos de mandonismo", isto é, ao monolitismo político autoritário que caracteriza a vida interna dos partidos e estados comunistas. Segundo ele, a "linha política" (de colaboração de classes e coexistência pacífica com o imperialismo), o "sistema de alianças" (com a burguesia 'nacional') e o "caminho privilegiado da transição pacífica" (ao socialismo, através da democracia formal, parlamentar, burguesa), não é stalinismo. É uma nova versão da história.
Se isso for verdade, Apolônio fica nos devendo uma explicação: Por que os "métodos de mandonismo"? Por que a "recusa às contradições e às lutas internas"? Por que o autoritarismo reinante nos países e partidos comunistas? Devido à fobia antitrotskista do Partido Comunista da União Soviética". (Como diz o companheiro em sua entrevista, referindo-se ao assassinato de trotskistas na Revolução Espanhola)? Mas então, insistimos: Por que a "fobia antitrotskista"?
Para estas perguntas só há duas respostas. Uma mística, idealista: a ambição de poder, a maldade stalinista. A outra é a resposta materialista, marxista: os "métodos de mandonismo" são uma conseqüência da linha ,política traidora, de colaborar com a burguesia e o imperialismo, em vez de ajudar as massas a fazer a revolução contra eles. E por que esta linha política? Porque tratava-se de "construir o socialismo num só país" e, para isso, manter o capitalismo e as boas relações no resto do mundo. E o que é o "socialismo num só país"? Uma utopia reacionária inventada por Stalin para justificar, em primeiro lugar, a dominação burocrática, os privilégios materiais e a desigualdade social crescente dentro da URSS e, em função disso, justificar também a traição e o abandono da luta contra a burguesia e o imperialismo fora da URSS.
Por isso o stalinismo sofria e sofre de "fobia antitrotskisia". Porque León Trotsky foi o primeiro a denunciar e lutar contra esta política e esta camada social privilegiada que usurpou o poder político dos trabalhadores no país da Revolução de Outubro. E agora, com o processo revolucionário que se desenvolve na Europa do Leste, está se revelando para toda a classe operária do mundo a natureza burocrática, tirânica, dos regimes que existiam nestes países. Começa a ficar evidente que o stalinismo não era, nem só "métodos de mandonismo", nem só uma ideologia, um programa de colaboração de classes para fora da URSS. Não era nem é somente uma discussão teórica aquela que se trava contra o stalinismo. Era e é um combate contra um aparelho com privilégios monstruosos, que agora está sendo derrubado pelas massas. E a política de colaboração de classes estava e está a serviço da preservação destes privilégios.
Nós defendemos uma política de alianças, uma política de frente dos trabalhadores com os pequenos proprietários da cidade e do campo, com as classes médias modernas dos centros urbanos; somos a favor da aliança com os camponeses. Nós pensamos que a classe trabalhadora (que evidentemente é a classe que pode emancipar a sociedade brasileira tanto da dependência nacional como da exploração do homem pelo homem) deve unir atrás de si a esmagadora maioria do povo. Agora, estas alianças são alianças sociais para avançar nesta direção, não para andar para trás. Elas devem ser feitas preservando a independência política dos trabalhadores, e o PT é o instrumento dessa independência política.
Para concluir, duas últimas observações sobre o artigo do Apolônio. O companheiro se refere ao PT e às "origens do PT", como se fosse um porta-voz autorizado pela imensa maioria dos militantes e filiados ao partido. Com isso, tenta pintar todas as correntes de esquerda como inquilinas e estranhas, não só ao partido mas às suas origens.
Com todo o respeito que temos pela trajetória do Apolônio, não reconhecemos nele autoridade suficiente para ser o porta-voz do PT ou das "origens do PT". Para dar um só exemplo, basta recordar que foi justamente um companheiro nosso, o Zé Maria de Almeida, dirigente metalúrgico, quem, pela primeira vez, apresentou uma moção "Pela criação de um Partido dos Trabalhadores", aprovada no Congresso dos Metalúrgicos de S.Paulo, em 1979, na cidade de Lins, com o voto, entre outros, do próprio Lula.
Menos ainda reconhecemos no companheiro autoridade para decidir antes e à revelia das bases do partido, que ele propõe "ouvir" depois da exclusão, no melhor estilo do fato consumado. Com isto o companheiro nos mostra que mesmo sua ruptura com "os métodos de mandonismo" do stalinismo foi incompleta, já que pretende reeditá-los contra as correntes de esquerda do partido. Se fosse há, 40 ou 50 anos atrás, não nos surpreenderia muito; mas em 1990, em tempos de revolução política contra as ditaduras burocráticas de partido único, monolítico e sempre unânime, é inegavelmente um péssimo exemplo do que se entende por democracia no interior das organizações dos trabalhadores. Péssimo e completamente sem sentido de oportunidade. Num momento como este, em que a classe trabalhadora mais precisa de unidade para lutar, enfrentar e derrotar o Plano Collor, Apolônio não escolhe melhor tema que fomentar a divisão. Contra o seu artigo, "Momento de Exclusão", nós respondemos, pelo contrário, Momento de União.
Valério Arcary
São Paulo - SP
Gostaria de precisar uma afirmativa feita por Carlos Nelson Coutinho no nº9 de Teoria & Debate, no ensaio Cidadão Brasileiro. Trata-se de um detalhe, que, em princípio, não fere o sentido geral das colocações ali feitas. Na verdade, referências a Gramsci poderiam ser encontradas não depois de 1945, mas já nos anos 30, ou seja, quando ainda estava vivo.
Ambas referem-se ao martírio de Gramsci. Uma é uma brochura de Romain Rolland (Os que morrem nas prisões de Mussolini; Antonio Gramsci; São Paulo, Udar, 1935. 15 p.; Trad. de Golbert Malheiros). A outra é um artigo publicado no jornal antifascista de São Paulo, O Homem Livre, assinado Um Exilado Italiano: "Enquanto se prepara o 'raid' de Balbo - Como se assassina Antonio Gramsci". O Homem Livre, nº4, 17/6/1933).
"Um Exilado Italiano" era o pseudônimo do professor de filosofia Goffredo Rosini (1899-1937). Natural de Salerno, em 1926 era um dos responsáveis "interregionais" do PC Italiano na clandestinidade. Preso, convive com Gramsci no cárcere. Após ser libertado, foge da Itália e chega ao Brasil no início da década de 30, onde se liga à Oposição de Esquerda do PCB. Em razão de sua experiência pessoal, tem destacada atuação nos meios antifascistas de São Paulo e na colônia italiana. Também atua na formação cultural no seio dessa colônia.
Foi um dos principais impulsionadores do jornal O Homem Livre, que circulou em 1933/34, e que propunha uma frente única das organizações de esquerda contra o integralismo. Preso no Rio de Janeiro em 1934, é expulso do país e vai para o Uruguai. Daí segue para a Espanha. Estava em Barcelona no início da Guerra Civil e participou dos combates de rua e depois no front de Aragon, onde foi ferido. Durante sua convalescença, acaba tendo um caso com uma enfermeira de origem russa. Ao sair do hospital, encontra-se com a enfermeira e nunca mais reaparece. Seus camaradas do Brasil foram informados de que foi seqüestrado e levado à URSS, onde foi morto. O pesquisador francês Pierré Broué nos comunicou descoberta realizada nos arquivos do Ministério das Relações Exteriores italiano: depois da 2º Guerra Mundial um indivíduo portando o passaporte de Rosini veio para o Brasil. Um agente da KGB? Provavelmente, mas esse suposto Rosini jamais procurou, nessa segunda estada, pelos seus antigos camaradas.
Finalmente, com relação a quais idéias de Gramsci foram aqui difundidas (e como) por Rosini é algo que alguns daqueles que o conheceram e que ainda estão vivos, como os irmãos Fúlvio e Lívio Abramo e Azis Simão, podem contar.
Dainis Karepovs
São Paulo - SP
O historiador Jacob Gorender, no nº8 de Teoria & Debate, lamentavelmente, repete as mesmas fórmulas de sempre.
Assim, anuncia, com rapidez, o nosso comunista: "Falar em democracia como valor universal é colocar no mesmo plano a democracia burguesa e a democracia socialista, que agora começa a ser construída em alguns países. (...) Defendo a democracia como valor do socialismo e, por conseguinte, compatível com o socialismo".
Legítimo, mas resta saber: qual o conteúdo do socialismo?
De fato, é muito ridículo quando intelectuais de esquerda (pensadores?) se utilizam de fórmulas prontas e acabadas, dogmas esclerosados e autoritários, para atacar companheiros do PT, que estão em busca de uma efetiva renovação da tradição marxista, de um pensamento efetivamente democrático-socialista. Irrita profundamente a geração "dona da verdade", "genoflexória" de Moscou e aduladora dos partidos comunistas mortos e muito bem enterrados, a luta pelo renascimento da subversiva democracia (da qual muita gente tem modo na esquerda).
Ainda, continua o nosso "perfeito e santo" articulista: "Comunismo é o nosso objetivo. E ele não pode ter morrido - mesmo porque concretamente não chegou sequer a existir."
Graças a Deus!! O céu, o inferno e o purgatório também não chegaram sequer a existir. O Plínio, o Waldemar Rossi e a Irma que o digam!!
José Pedro Renzi
Araraquara - SP
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