por Emir Sader*
Estivemos reunidos em Porto Alegre, milhares de pessoas, com o sentimento de estar construindo o sujeito histórico para a geração de um mundo novo. Chegamos porque queríamos estar, queríamos pertencer, queríamos opinar, queríamos ouvir, queríamos voltar a ter o nosso destino em nossas próprias mãos.
Milhares, que sabíamos ter milhões projetados sobre nós, todos os que, descontentes com o mundo reproduzido à imagem e semelhança do dinheiro e da mercadoria, olham para todos os lados buscando sinais de um novo mundo. Os mesmos olhos esperançados que se dirigem para Chiapas, para o MST, para o orçamento participativo, para todos os sinais de discordância, de resistência e construção de espaços novos que prenunciem um novo futuro.Voltaremos a Porto Alegre daqui a um ano. Seremos muitos mais, seremos mais fortes, seremos melhores. Contanto que saibamos captar o que há de novo no mundo depois do Fórum Social Mundial deste ano, a real correlação existente e definir com clareza quais os caminhos pelos quais poderemos avançar na acumulação de forças. Em suma, saibamos ter consciência da nossa situação.
Que condições estão dadas para que se avance na construção de uma nova força histórica? Quanto avançamos e que caminhos temos que trilhar para dar uma virada decisiva nessa luta?
O FSM representou, em primeiro lugar, uma vitória moral, isto é, ficou claro para todos que se ligaram nos dois eventos – Davos e Porto Alegre –, que era aqui que se discutiam os temas fundamentais da humanidade na entrada do novo século. O amplo leque de assuntos em discussão, a composição contrastante dos dois times que se enfrentaram na teleconferência, o tipo de gente que foi a um e a outro, as propostas feitas, tudo remeteu a dois mundos diferentes: o dos de cima e o dos de baixo, o do dinheiro e o dos direitos, o do lucro e o da necessidade, o da especulação e o do trabalho, para dizê-lo em fórmulas simples.
Foi também uma vitória ideológica, ao deslocar os debates – ou acentuar seu deslocamento – para a ótica do social, em detrimento do economicismo reinante. Davos teve que se vergar às preocupações de ONGs, os temas financeiros tiveram que ser tratados nos bastidores. No debate televisivo, os de Davos buscaram desesperadamente pontes de contato e diálogo com Porto Alegre, sem consegui-lo.
Outra vitória ideológica foi o reconhecimento de que um outro pensamento é possível, presente simplesmente na aceitação do debate, embora a grande imprensa mundial já houvesse consagrado a contraposição de dois mundos pela cobertura quase eqüitativa para os dois eventos.
No plano teórico e de propostas é preciso ainda recolher todo o material apresentado para que um balanço real seja possível, embora já saibamos, pelo nível de elaboração conhecido, que há amplos pontos de coincidência nos diagnósticos a respeito da situação do planeta: o período atual do capitalismo, a relação de forças existente, as principais linhas de ação para a superação do neoliberalismo, a mercantilização de tudo como obstáculo fundamental para a construção de um outro mundo.
As novas condições de luta pressupõem formulações teóricas e estratégicas que requerirão um esforço específico de elaboração, dadas a novidade nas formas de acumulação de forças e as novas modalidades que a diversidade de conflitos – com formas de organização diferenciadas e complexas relações entre diferentes movimentos, partidos e ONGs – impõe.
Temos assim força moral e social acumulada, assim como um certo capital teórico. No entanto, essa força enfrenta uma debilidade enorme no campo político. Desde Seattle conseguimos mudar o cenário ideológico no mundo, porém isso não fez com que aparecesse – até aqui, pelo menos – nenhum governo novo defendendo posições pelo menos próximas às nossas. Embora deslocados pela nova polarização mundial – que já não corresponde a seus já velhos discursos sobre a "modernidade" e o "atraso" –, os governantes e a tecnocracia econômica dos organismos internacionais, com os seus ventríloquos, puderam seguir adiante com a farra especulativa. Não deixou de circular um só dólar nos circuitos especulativos do mundo. Nenhuma força política significativa assumiu posições diferentes das que tinha em meados da década passada. A frente de luta contra o neoliberalismo não conta com governos, como os que existiam no Terceiro Mundo, sem falar na desaparição de regimes que se proclamavam anticapitalistas. O que não quer dizer que não possam começar a aparecer, embora o Brasil seja ainda um caso isolado de país em que seja possível conquistar um governo sintonizado com o FSM no ano que vem.
Essa nova situação nos coloca a necessidade de encontrar ferramentas teóricas que nos permitam encarar as novas formas de acumulação de forças nas condições atuais de luta. Como passar dessa força moral e social a força política? Como apoiarmo-nos nos governos locais e fazer deles alavancas para conquistar governos nacionais e, ao mesmo tempo, articular alianças internacionais? Como combinar programas locais de auto-organização e resistência com mecanismos que lhes permitam sobreviver e reproduzir-se, em meio a uma dinâmica avassaladora de financeirização e mercantilização que busca ocupar todos os espaços das nossas sociedades?
O maior desafio que temos pela frente é assim o de forjar força política para que possamos efetivamente começar a transformar o mundo feito à imagem e semelhança do liberalismo econômico.
Contamos com uma série de formulações que nos permitem reassumir a iniciativa política, algo que nos faltou tanto no período anterior e que fez com que ficássemos em grande parte reduzidos a uma atitude de resposta a iniciativas neoliberais, capazes estas de definir os temas e os termos do debate.
Contamos agora com a Frente de Prefeitos, que irá à reunião do G-8, na Itália, com as propostas da Frente de Parlamentares e da Via Campesina, entre tantas outras.
No nosso caso, temos diante de nós as definições sobre a inserção internacional dos países da América Latina, combate que joga suas cartas decisivas este ano, com as reuniões de Buenos Aires – no começo de abril – e do Quebec – no fim de abril –, onde os EUA e seus aliados continentais pretendem assinar os acordos da Alca, cuja entrada em vigência cogita-se até mesmo ser antecipada para 2003. (Provavelmente uma manobra para deslocar a discussão, tirando-a do foco central: assinar ou não os acordos e, talvez, ao final, fazer a "concessão" de deixar para a data original, conquistando o essencial: os acordos.)
Não nos limitaremos ao protesto em Buenos Aires e no Quebec. Trabalhamos para que parlamentares da maior quantidade possível de nações do continente possam apresentar projetos de lei similares nos congressos dos seus países, obrigando seus governos a convocarem um plebiscito antes de assinar qualquer acordo referente à Alca. Ainda que estes não sejam aprovados, como no caso da dívida externa no Brasil, em que conseguimos que mais de 6 milhões de pessoas votassem, faremos plebiscitos convocados por organizações populares. Oxalá no mesmo dia – por exemplo, um 12 de outubro – para que os povos latino-americanos se pronunciem sobre a forma de inserção – soberana ou subordinada – no mundo atual.
Contaremos com uma proposta alternativa de integração, elaborada no seminário "América Latina: integração soberana ou subordinada?", realizado na Uerj, no Rio de Janeiro, no começo de 2001.
Além disso, deveremos desenvolver o maior número de iniciativas políticas que apontem na direção do mundo solidário e justo que desejamos. Iniciativas sobre os transgênicos, sobre a fome na África, contra o Plano Colômbia, entre outras.
O principal é nos sentirmos todos militantes na construção de um mundo novo, usarmos o melhor da nossa capacidade de elaboração teórica, da nossa criatividade política, da nossa sensibilidade social, do nosso calor humano, da nossa capacidade de acreditar que um outro mundo é possível e absolutamente necessário, para fazer de Porto Alegre 2001 um ponto de não retorno, fazer do FSM uma alavanca para a construção da força social, moral, política e cultural que nos faça negar o mundo como mercadoria, para a construção de um mundo à imagem e semelhança do que de melhor a humanidade já produziu. Para dizê-lo numa palavra – de um mundo à imagem e semelhança do Che Guevara.
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