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Debate: Não se fazem mais homens como antigamente?

Teoria e Debate nº 28 - março/abril/maio de 1995

publicado em 22/04/2006

por Maria Rita Kehl*

Nesta primeira metade dos anos 90 alguns vêm colocando em questão o equilíbrio - já desde sempre precário - da relação amorosa entre o homem e a mulher. M. Butterfly, de David Cronenberg, Adeus, Minha Concubina, de Chen Kaige e Traídos pelo Desejo, do irlandês Neil Jordan, têm muita coisa em comum. São histórias de homens que amam demais. Histórias de homens que amam outros homens como se fossem suas mulheres. Ou ainda histórias de homens que sabem se fazer de mulheres tão perfeitas, tão delicadas, tão femininas, que são a encarnação perfeita da fantasia masculina - irresistíveis para seus amantes atônitos.

"Sabe por que na Ópera de Pequim os papéis femininos são representados por homens?" Pergunta a "diva" a uma camarada obtusa do Partido Comunista. "Restos da herança de dominação patriarcal", opina a colega. "Não. É porque só um homem sabe perfeitamente o que uma mulher deveria ser." O curto diálogo resume perfeitamente o espírito que anima os enredos que escolhemos para analisar. São filmes sobre o homossexualidade masculina? Sim, e não. Sim, do ponto de vista do gozo daqueles personagens que encarnam na perfeição os ideais da feminilidade para se fazerem amar loucamente por outros homens. Não, se considerarmos o que se passa com os que ocupam as posições femininas, "lidibriados", se é que se pode dizer assim (em Adeus Minha Concubina, certamente não) pela fantasia do feminino encarnada em seus parceiros.

Não se fazem mais homens como antigamente? Duvido. Tenho a impressão de que os homens continuam a querer o que sempre quiseram: encontrar numa mulher toda à disposição amorosa, quase artificial, passiva, que se convencionou chamar de feminilidade, aliada a uma capacidade de afirmar o próprio desejo e lutar por ele, a uma coragem que eu chamaria, sem, de viril. Virilidade é uma invenção das mulheres a que os homens se esforçam por corresponder, mas que adoram encontrar numa mulher; feminilidade é uma projeção do desejo masculino que as mulheres aprendem a encarar, e se encantam quando encontram, bem dosada, na personalidade de um homem. Sendo assim, não é de espantar que qualquer um, independente do sexo biológico, possa preencher os requisitos para se candidatar ao lugar masculino ou feminino. A produção pós-mooderna das "sexualidades alternativas" está aí para atestar que homens e mulheres, afinal, a despeito do imenso esforço repressivo de quase todas as civilizações que tentam manter os dois terrenos bem demarcados, são praticamente uma coisa só, apesar da pequena diferença irredutível que torna o encontro erótico cheio de possibilidades interessantes. Diferença irredutível, mas não fundamental para o desejo, já que todas as formas de amor homoerótico se baseiam justamente no prazer de eliminá-la. Homem e mulher são basicamente uma coisa só, repito, separados por uma pequena diferença, e negociando através da moeda imaginária, valorizadíssima, que chamamos de amor.

Citei a produção das sexualidades alternativas da pós-modernidade para evitar a banalidade de citar os gregos, mas não se pode esquecer que um valente guerreiro como Alcibíades, tão viril e vitorioso quanto um Clint Eastwood em seus melhores bague-bangues da juventude, não tinha o menor pudor de manifestar sua paixão, seu fascínio e seu desejo pelo velho Sócrates. Como uma mulher, Alcibíades, no "Banquete" declara seu amor pelo filósofo e seus esforços (vãos) para seduzi-lo, não em função de seus dotes físicos - Sócrates já era um velho, então - mas de sua sabedoria e inteligência. Como uma mulher, Alcibíades se fazia belo e sedutor para atrair seu mestre, sem deixar de ser por um instante um homem, um macho da espécie, um bravo guerreiro.

Voltando aos filmes, as personagens "travestidas" me fazem pensar: por que os homens inventaram a feminilidade e a impuseram docemente às mulheres, sinalizando a elas a fantasia que corresponde ao seu desejo? A resposta a esta pergunta tem alguma coisa a ver com o masoquismo - não aquele mais caricato, do amor pelos saltos de botas e chicotinhos, mas o masoquismo de todos nós, isto é: a disposição para a passividade, a entrega sem limites, a submissão, que se encontra freqüentemente em um dos dois pólos do par amoroso. Que esta entrega passiva é prazeirosa, porque repete a experiência do bebê indefeso entregue aos cuidados, aos carinhos e aos desejos de sua mãe, é fato assinalado em qualquer cartilha de psicanálise. Que esta disposição facilite dominações outras, instrumentalizações e explorações de todos os tipos na dinâmica interna da relação amorosa, estamos cansados de observar e as feministas, há muito tempo, cansadas de denunciar.

Que os homens tenham inventado a feminilidade como o conjunto de atributos ideais para o sexo oposto fica claro: se alguém tem que encamar a posição masoquista no casal, que ela fique do lado da mulher. Porque a mulher é "naturalmente" masoquista? Nada disso. Porque o homem, pressionado pela angústia de ter que conservar seu órgão sexual como um objeto fálico, é muito mais apavorado, muito mais ameaçado do que a mulher. Uma mulher encara subjetivamente a posição masoquista sem susto: ela "não tem nada a perder" com as dores do amor. Não quero com isto equiparar feminilidade a masoquismo e muito menos - já que a relação feminilidade/mulher é socialmente produzida - afirmar que o masoquismo é uma característica das mulheres. A passagem é um pouco mais complicada. O que estou querendo dizer é que um certo masoquismo é essencial para a fantasia do amor. Que as mulheres tenham se encarregado historicamente do amor (não vou repetir as lições do velho Engels aqui) e que tenham muito menos medo da entrega amorosa explica a associação que a linguagem faz entre "masoquismo" e "feminilidade". Mas o que poderia ser fonte de muito prazer na relação amorosa se transformou, dada a secular posição de poder dos homens dentro da família, em uma experiência de escravidão vivida por gerações e gerações de mulheres cuja "submissão" ao poder patriarcal não tinha graça nenhuma.

Tanto que as mulheres contemporâneas vêm recusando qualquer identificação com a posição daquela que se "entrega" no amor. Em nome de sua recém-conquistada liberdade - com todas as "doenças infantis" de auto-afirmação e desafio fálico que inevitavelmente a acompanham - as mulheres parecem ter perdido uma antiga sabedoria erótica: a de representarem (pois se trata de um jogo, que não deve ser estendido para todos os domínios da vida) o pólo da desmesura, do abandono, do "sacrifício" exigidos pela encenação do "grande amor".

O que não significa que o grande amor tenha seus dias contados. Ainda existem os homens que amam como só uma mulher deveria saber amar. Os travestis, estes últimos defensores da feminilidade. Estes que sabem muito bem que os homens continuam querendo o que sempre quiseram: uma mulher que os proteja de seu próprio masoquismo, tomando o encargo da entrega e da dor do amor, para si. Mesmo que esta mulher se chame João.


*Maria Rita Kehl é psicanalista e membro do Conselho de Redação de T&D.

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