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Debate: Socialismo real - O crepúsculo das burocracias

Teoria e Debate nº 08 - outubro/novembro/dezembro de 1989

publicado em 16/05/2006

"As forças crescentes do movimento operário têm a obrigação de refletir sobre essa realidade. Já começaram a fazê-lo quando deixaram de lado o rótulo 'comunista', não por preconceito ao velho Marx, mas por recusarem qualquer espaço de confusão com os partidos tradicionais, em particular com os PCs".


por Glauco Arbix*

Às vésperas da Revolução de 1917, Lenin fez um enorme esforço para restaurar pelo menos uma parte dos ensinamentos de Marx então praticamente esquecidos por seu partido consagrados ao Estado, ao socialismo e à burocracia. Tornou-se famoso o seu aforismo ao indicar que "com o socialismo, e mesmo numa ditadura do proletariado, a administração torna-se-á tão fácil que qualquer cozinheiro será capaz de dirigir os negócios do Estado".
Refletindo sobre o assunto, ouvindo o noticiário nas rádios, lendo os jornais e principalmente vendo na TV o massacre dos estudantes na praça da Paz Celestial em Pequim, me ocorreram subitamente dois pensamentos: ou os dirigentes do Partido Comunista Chinês tiveram razão em jogar o 27º Exército contra os estudantes; ou, então, o socialismo-real, aquele que tenta se basear na teoria do "socialismo-num-só-país", desnudou-se como o "socialismo-em-país-nenhum".
Deixaremos às notas oficiais do governo Deng, inspiradas no arsenal stalinista, a defesa da primeira hipótese, já que para responsabilizar os agentes da CIA infiltrados no movimento de massas não exige muito esforço, principalmente quando esse movimento desagrada pesados dirigentes de "esquerda". Tentaremos desenvolver o segundo pensamento ao longo deste artigo.
A responsabilidade que um partido como o nosso tem hoje é enorme. Responsabilidade de apontar um caminho distinto do capitalismo e do "socialismo burocrático", que vive hoje a sua mais dolorida agonia, como os acontecimentos na União Soviética e na China podem demonstrá-lo. São os povos desses países, herdeiros de revoluções, que fustigam e desafiam abertamente os dirigentes "comunistas", repudiando o nepotismo, a corrupção, a estagnação econômica, os privilégios, a degradação das condições de vida, a ausência de democracia e os impasses patrocinados pela gestão burocrática. Gestão ultracentralizadora, que prescinde da população, da classe trabalhadora, cujos dirigentes se arvoram em seu único e legítimo representante.
O caldeirão hoje ferve no Leste, na URSS, na China, na Polônia, na Hungria e em vários outros países que se transformam em cenário para manifestação de milhares e até milhões fugindo do controle dos dirigentes, de uma forma inédita na sua história.
Por isso mesmo, somos levados a acreditar que estamos assistindo ao crepúsculo dos regimes burocráticos.
Por motivos éticos e profissionais, não trabalharemos com a terceira hipótese, a da tradução malfeita da frase de Lenin, que teria substituído a palavra "cozinheiro" por "açougueiro" - os chineses, mestres seculares da culinária, não fariam essa confusão.

Por que o espanto?
Lendo atentamente a imprensa mundial, seja de direita ou mesmo de esquerda, ficamos um pouco perplexos com a intrincada rede de variáveis que nos salta aos olhos. Bush, Thatcher, Mitterrand, o papa e até mesmo Sarney, repreendem Deng. Não muito é verdade, uma vez que os negócios da China, assim como várias propostas das reformas econômicas que vinham sendo aplicadas - como a revitalização da economia de mercado, a abertura ao capital estrangeiro, por exemplo - eram do agrado desses chefes de Estado de países capitalistas. Choram também lágrimas de crocodilo pelos estudantes reprimidos, já que a violência contra seu próprio povo e contra o povo de outros países sempre contou com seu beneplácito. Esses representantes do grande capital aproveitam-se da tragédia chinesa para minar as já enfraquecidas conquistas da revolução, assim como para atacar a idéia mesma de revolução e de socialismo.
A social-democracia, a mais competente administradora hoje do capitalismo em crise, sente-se fortalecida em suas teses sobre o autoritarismo inato do comunismo e procura, na verdade, identificar esse conceito, na sua versão stalinista, ao marxismo. Sua ação, tendo em vista seu comprometimento com a ordem imperialista, visa de uma só penada passar um atestado de óbito aos dois.
A Albânia, que, segundo alguns, seria o único reduto socialista a resistir bravamente às tentações do revisionismo, até agora não se pronunciou. Gorbatchev, apesar da glasnost, teceu comedidos considerandos lamentando o ocorrido, porém de modo a não atrapalhar sua tentativa de reaproximação com a China. Fidel emudeceu. E o Vietnã, assim como a Alemanha Oriental, apoiou abertamente a repressão.
A opinião pública mundial, estarrecida com a violência, expressou das mais diferentes maneiras seu repúdio ao massacre dos estudantes. E a Nicarágua, por meio da Frente Sandinista, e o PT se solidarizaram desde o primeiro instante com a juventude chinesa, os estudantes e os trabalhadores. O PT, inclusive, rompeu toda e qualquer relação com o PCC em decisão histórica no V Encontro Nacional Extraordinário.
Se dispuséssemos de espaço e de tempo, poderíamos ampliar esse quadro de modo a que todos pudessem visualizar quem e como se pronunciou no cenário político dos dias de hoje.
Esse quadro, fundamental para todos os democratas e socialistas, teria, além de um valor pedagógico inestimável, a virtude de tornar transparentes muitos lobos que circulam pelo mundo e que se escondem por baixo da pele do cordeiro.
Uma discussão sobre o "socialismo chinês" é vital para um partido nascente como o nosso. Vital para destrinchar os nossos rumos, assim como para identificar quem são os nossos amigos e que herança teremos de recusar.
Como petistas, socialistas e internacionalistas, lutamos pela emancipação da classe trabalhadora. Queremos chegar ao poder, desalojar a burguesia, pôr fim à exploração do homem pelo homem; queremos acabar com a miséria e a fome e viver plenamente a liberdade e não a hipocrisia do capitalismo. Justamente por isso, como marxistas que somos, não nos dobramos diante do terror obscurantista que repele a crítica aos chamados países socialistas, situando-a "objetivamente' no campo do imperialismo.
Milhares de militantes operários foram calados por esse terror. Hoje, não há a menor possibilidade de se discutir e educar as jovens gerações no espírito da revolução, da luta pelo socialismo, se não nos distanciarmos radicalmente dos Dengs e Li Pengs da vida.
Não se trata de confundir e colocar um sinal de igual entre os países imperialistas e aqueles em que a burguesia foi expropriada. Mas trata-se de compreender que se o imperialismo gera a opressão dos povos, a pobreza e as guerras, o "socialismo" que nos oferecem é requentado e de difícil digestão.
Os recentes acontecimentos da China derramaram um mar de desesperança no mundo militante, em particular na juventude. E para combater a onda de ceticismo que inevitavelmente tomará corpo é preciso falar claro, deixar claro que revolução não é idêntica a socialismo; que, se em vários países um passo enorme foi dado com a quebra da burguesia e a criação de Estados operários, até agora, a deformação resultante chamada "socialismo real" está muito longe de ser socialismo.
Trata-se de compreender que se o capital não apresenta nenhuma esperança para o povo trabalhador, socialismo burocrático também não.
É preciso voltar às origens do movimento operário. Que os velhos partidos comunistas se esgotaram, que muitos deles degeneraram, não resta a menor dúvida. Mas o fim de um partido, que se reivindica do marxismo, não significa o fim do marxismo. Pelo contrário, o único referencial de que o movimento dos trabalhadores dispõe para compreender e agir diante da crise do capitalismo e dos Estados operários é o marxismo, pois ali, mais do que nunca, são as tensões, as contradições sociais que afloram segundo as leis da luta de classes. A alternativa posta para nós não pode ser: retorno ao capitalismo ou dominação burocrática mas sim a emancipação dos trabalhadores através da luta contra a burguesia.
A evolução da situação na URSS, os acontecimentos na China, provavelmente levarão os historiadores de amanhã a caracterizar o primeiro semestre de 1989 como um dos mais importantes da segunda metade do século XX. A eclosão de maciças mobilizações na URSS, a greve dos mineiros, sob inspiração da glasnost e sintonizadas com uma parte da cúpula do Estado e do partido, assim como as manifestações em toda a China, num movimento que terminou em choque com a casta dirigente, sinalizam para o mundo que os mais extensos e profundos movimentos de mudança, por mudança, estão ocorrendo desde que Stalin concentrou todo o poder em suas mãos nos anos 20.
Nos dois casos, ainda que através de formas diferentes, fruto de uma história e experiências distintas, há um choque das forças vivas contra os dirigentes burocráticos, verdadeiros parasitas encastelados nos Estados operários e nos partidos comunistas. Essa camada de dirigentes comanda um império de funcionários, que vivem apoiados numa rede de favores e privilégios, num sistema improdutivo, carregado pela classe trabalhadora e avesso a ela, que não participa, não dispõe de órgãos próprios e, até bem pouco tempo, não podia se manifestar nem se organizar.
A democracia, nesse caso, é incômoda para os governantes. O partido, obviamente, tem de ser único. O planejamento, administrativamente centralizado, é impermeável e insensível à triste situação das condições de vida do povo e vive, muitas vezes, em função do jogo de pressões e contrapressões ao imperialismo.
Esse sistema monstruoso, hoje, vive sua maior e mais profunda crise. O sistema e também os burocratas, parte integrante e fundamental desse mecanismo.
Mas, afinal, o que é essa burocracia?
Temos que procurar as raízes da burocracia, a maneira como ela gera e é gerada pelo Estado hipertrofiado, o modo como ela passeia à vontade do partido para o Estado, dos corredores palacianos para as coxias partidárias e a forma como ela se apropria e redistribui - principalmente para si mesma - uma parcela considerável da riqueza produzida pelos trabalhadores.
A pulverização das organizações que se reivindicam do marxismo, particularmente depois do fim da III Internacional, o gosto pelo sectarismo que muitas vezes delas tomou conta, não possibilitaram a superação do trabalho predatório do stalinismo e suas variantes. O marxismo foi oficializado e empobrecido. Desde Trotsky, em particular com sua elaboração condensada em A Revolução traída, muito pouco de novo foi produzido sobre as sociedades do pós-revolução. Esse dilema dos marxistas só será superado com a elaboração de um pensamento estreitamente vinculado à luta real dos trabalhadores, orgânico e não vigiado.
Pois é preciso cavar fundo para encontrar as bases da burocracia, a fim de ver por que esse flagelo da civilização humana, tão velho quanto o Estado, alcançou proporções tão aterradoras justamente nos países em que a classe trabalhadora fez a revolução.
Não falamos hoje como os "surpresos de Tianamen". Quem descobriu o stalinismo somente agora com a triste Primavera de Pequim vai demorar algum tempo ainda para se encontrar de verdade. Os processos de Moscou, que dizimaram a velha-guarda bolchevique, a coletivização forçada na URSS, a industrialização a ferro e fogo estiveram na base do "socialismo" de Stalin, mandante dos mais hediondos crimes da história. Seu método foi seguido pela maioria dos partidos comunistas, que passaram à colaboração de classes para sustentar a coexistência pacífica entre o Estado operário recém-nascido e o imperialismo.
A Revolução russa de 1917 criou o primeiro Estado baseado na expropriação da burguesia. Sua vocação era a transição para o socialismo, entendido como a primeira fase do comunismo, que, de acordo com todo o corpo doutrinário do marxismo, só se completaria na arena internacional, pois não há como enfrentar o capital internacionalizado enfeudando-se nas grandes muralhas. Quem assim fez teve de interromper os processos revolucionários em várias partes do globo. Penalizou seus povos e gerou deformações gigantescas. A revolução, quando se conquista, se decompõe.
Esse sistema, construído e imitado a partir da primeira revolução socialista vitoriosa na URSS, está em plena crise. A luta contra a burocracia é a luta pela liberação das energias da classe trabalhadora, lá, no Leste, mas também aqui, nos países dominados pelo capital.
Gorbatchev compreendeu essa realidade. E, muitas vezes, procura resolver esse impasse com base em acordos com o imperialismo, ainda que sua ação impulsione profundamente as massas. Essa contradição tende a explodir, pois a crise é dilacerante.

Às raízes
Os textos marxistas sempre alertaram para os perigos da burocracia. Já Engels, na Anti-Duhring, desenvolveu uma concepção que tentava prevenir contra esse perigo no socialismo:
"O proletariado apodera-se do poder do Estado e transforma, lentamente, os meios de produção em propriedade do Estado.
Desta forma se destrói a si próprio como proletariado, suprime todas as diferenças e antagonismos de classe".
Antes, o Estado era necessário como órgão da classe exploradora, como meio de opressão sobre as classes exploradas, os escravos, os servos e os trabalhadores assalariados. Com o socialismo, o Estado, no momento em que se torna verdadeiramente representativo do conjunto da sociedade, torna-se, por isso mesmo, supérfluo. E com o desenvolvimento pleno das forças produtivas modernas, com a abundância dos bens, não haverá mais a necessidade de manter os homens e o trabalho subjugados. O problema é que, além das características próprias dos países em que a Revolução se fez e que tinham um regime capitalista atrasado, a gestão burocrática, baseada na ilusão do "socialismo-num-só-país", a partir de determinado momento constitui-se num entrave ao desenvolvimento das forças produtivas e resultou, na realidade, da carência e não da abundância.
Analisando a experiência da Comuna de Paris, Marx e Engels pressentiram as ameaças burocráticas que poderiam surgir no futuro. A Comuna tinha tomado inúmeras precauções que deveriam servir de exemplo para as transformações socialistas. A própria Comuna havia sido eleita através de eleições gerais e havia criado um serviço civil eleito, cujos membros podiam ser demitidos em qualquer momento a pedido dos eleitores. A Comuna aboliu o Exército permanente e substituiu-o pela milícia popular. Estabeleceu também o princípio segundo o qual nenhum funcionário deveria ganhar mais do que um trabalhador. Essas medidas serviriam para abolir os privilégios de uma classe ou de um grupo social. Em outras palavras, a Comuna, por seus atos, começou a indicar o caminho para a gradativa extinção do Estado.
Lenin, em O Estado e a Revolução, retomou integralmente essas teses. No entanto, a sua própria revolução, sob o comando de outros, voltou-lhe as costas.
Nós podemos encontrar nas bases teóricas de vários PCs um repertório de citações clássicas denunciando a burguesia e seu Estado de classe. Mas são inúmeras as elaborações em que podemos perceber a tentativa de caracterizar que o mesmo Estado que serve ao grande capital poderia atender às necessidades básicas dos oprimidos. Implicitamente, esses teóricos admitem que a natureza de classe do Estado é determinada pelo seu pessoal dirigente, e que seria suficiente substituí-lo para que um novo conteúdo tomasse corpo nas formas do Estado.
Essa visão, que busca conviver com o Estado burguês, como se ele fosse uma forma cujo conteúdo pudesse ser preenchido por quem estivesse à sua cabeça, fornece as bases para todo tipo de visão tecnicista atual.
Esses teóricos não questionam até o fim a existência mesma do Estado, isto é, a separação do poder da grande massa de trabalhadores, ou ainda o aparelho burocrático que se encarrega dos interesses gerais, acima de todos os interesses. Para eles, trata-se de "aperfeiçoar" o Estado, de torná-lo um pouco menos opressivo, de arejá-lo em sua composição e seu funcionamento.
Não temos uma visão ingênua que nega a necessidade de afirmar o poder transitório do Estado, como se pudéssemos ignorar a guerra entre as classes, a sabotagem e os ataques da burguesia e do imperialismo. O problema é que podemos constatar que o Estado vai sendo gradativamente reforçado e que a sobrevivência da burocracia exige não só a permanência como o fortalecimento do aparelho estatal. Longe de se extinguir pouco a pouco, o Estado reuniu nesses países mais poder do que nunca. Pela primeira vez na história da humanidade, a burocracia dirigente aparece como sendo onipotente e onipresente. Mesmo no capitalismo, em que o poder da burocracia é enorme, sua força é contrabalançada pelo efetivo poder dos proprietários, da burguesia enfim, que comanda em última instância a economia e a política. Nos Estados operários não há tais limitações. A burocracia gere os recursos da nação, comporta-se como um corpo independente, acima da sociedade e sempre, é claro, falando em nome dela.
E o povo, como está vendo esse "socialismo"?
Na China, a Primavera de Pequim atualizou inúmeras reivindicações e mobilizações das Cem Flores e da Revolução Cultural, que foi interrompida bruscamente. Na Polônia, o Solidariedade nasceu se reivindicando das lutas operárias dos anos 70 e da revolta de 1956. Na Hungria, as manifestações forçaram o reconhecimento de Imre Nagy, enforcado em 1958 depois da invasão das tropas soviéticas. Na Tchecoslováquia, a luta pela democracia vem da Primavera de Praga, da Carta dos 77 das associações livres.
Na URSS, a glasnost e a perestroika de Gorbatchev tentam dar conta dessa situação, abrindo caminhos para evitar incômodas explosões no país-chave de toda essa discussão. A política de Gorbatchev influencia e, ao mesmo tempo, obriga a realinhamentos em todos os países do socialismo real.
Pode ser que suas políticas se constituam numa resposta preventiva de um setor da burocracia diante do seu crescente isolamento. Pode ser que Gorbatchev tenha calcado suas reformas nas propostas húngaras e chinesas, que, por sua vez, tenderam a acentuar as diferenciações sociais, a questionar a política do pleno emprego e mesmo a facilitar a penetração do capital estrangeiro - diga-se de passagem, aspectos esses muito criticados pelos dirigentes cubanos. Isso, no entanto, não modifica em nada o fato de que a ação de Gorbatchev assim como a política de democratização que ele definiu constituem um ponto de apoio essencial para o movimento de massas, para as diversas nacionalidades sufocadas pela camisa de força da centralização estatal, para a juventude e também para a classe operária, inclusive de outros países.
O modo como os manifestantes na China se aproveitaram da visita de Gorbatchev para impulsionar sua luta pelas liberdades é um exemplo do lugar que ocupa hoje a ala reformista da burocracia. Poucos meses antes de Pequim, a presença de Gorbatchev propiciou a eclosão de uma manifestação de "dissidentes", que foi reprimida aos gritos, exigindo um "Gorbatchev tcheco". Na China, a figura de Zhao Zhiyang, na época secretário-geral do PCC, também serviu de escudo para a juventude, uma vez que ele procurava posições mais conciliadoras com o movimento dos estudantes.
Esses cismas deverão viver novos desdobramentos com a intensificação das mobilizações na URSS e nos países do Leste, e com o surgimento de novas formas de reivindicação e expressão nas difíceis condições chinesas.
Mas os tanques não conseguirão sufocar os poderes de todo um povo, que, aos milhões, demonstrou compreender a realidade tão simples como a explicitada no dazibao que reproduzimos abaixo:

"O povo e seus líderes"
"À primeira vista, o povo chinês é o senhor de seu país.
Há uma infinidade de palavras em nosso idioma às quais é preciso acrescentar o adjetivo 'popular'. Por exemplo: 'governo popular', 'polícia popular', 'tribunal popular', 'procurador popular', 'correios e telégrafos populares'... Existem também os 'restaurantes populares', os 'banheiros populares' etc. Um último exemplo: até nossas fábricas são chamadas de ‘fábricas populares'.
Em todos os lugares e circunstâncias, o povo está sempre em primeiro plano. Nos jornais, na televisão, assim como nos discursos dos funcionários dirigentes, o povo é constantemente colocado em relevo. As pessoas não cansam de repetir que o povo é o senhor da nação.
Para mim, que sou um membro do povo, este é um motivo de orgulho e felicidade sem limites. Afinal, quem não daria graças aos céus por figurar entre os senhores do país?
Entretanto, quando se passa para um nível um pouco mais concreto, verifica-se que não é tão simples ser um senhor do país. Eis alguns exemplos disso. De manhã, quando as pessoas vão para o trabalho, ou de noite, quando voltam para casa, os aborrecimentos são sempre os mesmos: há muita gente na rua e poucos ônibus, e não se pode evitar de ser empurrado e esmagado. Na fábrica, é preciso trabalhar. A jornada é longa, o trabalho é penoso e, além disso, não nos dá prazer. Mas temos de garantir a subsistência. Portanto, mesmo a contragosto, seguimos de manhã para o trabalho. O excesso de população provoca carência de moradias. Onde mais se poderia colocar o balde de excrementos, a não ser embaixo da cairia? Alguns desses 'senhores' são também enviados para o campo ou para as montanhas, são destacados para as regiões de fronteira, sempre sujeitos a uma transferência... Para eles, a situação é ainda mais negra.
Quanto mais avançarmos neste raciocínio, mais as coisas nos parecerão estranhas. Aparentemente, todos os funcionários de nosso país, ‘seja qual for a situação hierárquica, são servidores do povoo’. Bom, muito bom! A questão é que esses ‘servidoress’ têm mais prestígio e poder que seus supostos ‘senhoress’. Quando eles põem um pé para fora de casa, é para embarcar em um avião, ou então para entrar em um automóvel, a fim de evitarem caminhadas a pé. Para participarem de banquetes grandes ou pequenos, eles não precisam tirar dinheiro do bolso. Seus escritórios são espaçosos e bem iluminados, suas casas dispõem de todo o conforto... Talvez vocês achem que meu ponto de vista é vulgar, ordinário, que me deixei obcecar pelos prazeres materiais... Mas eu me pergunto: quem dispõe de mais poder nos planos político e legal, os 'servidores' ou seus 'senhores'? A resposta é evidente.
Agora vocês entendem por que alguém como eu, que normalmente se conforma com sua condição de integrante do povo, e portanto da raça dos senhores, se sente presa de uma inveja súbita e irreprimível: ali, quem me dera deixar de ser senhor e transformar-me em servidor! O problema é que não basta querer! É preciso ser indicado pelos superiores hierárquicos. E então, o que fazer? Aparentemente, estou condenado a permanecer 'senhor' por toda a eternidade, pois é esse o destino que me coube ao nascer. Por outro lado, isso prova que os servidores de nosso país são revolucionários 'até o fim', e que a missão que lhes coube de servir ao povo só é interrompida com a morte. Nesse caso, dá na mesma passar o tempo deitado na cama, limitando-se a comer e fazer as necessidades, até o momento de se converter em pó! Quanto ao título hierárquico, quer seja de membro do comitê, presidente ou secretário, ele permanecerá intacto para todo o sempre". (Mural afixado na praça do Povo, em Xangai, em 22 de fevereiro de 1979. In: A Comuna de Pequim, de Marília Andrade e Luis Favre. Ed. Busca Vida, 1989)

Afinal, que dirigentes são esses?
Deng Xiaoping, no VI Plenário do Comitê Central do PCC, em 28 de setembro de 1986, declarava:
"No presente momento, uma corrente de pensamento está atuando em nosso meio. Se entrarmos pelo caminho da liberalização, nos será impossível manter uma situação política estável. Se entrarmos pelo caminho da liberalização, acabaremos destruindo nossa atual situação política de unidade e estabilidade. Assim teremos arruinado nossas chances de persistir no empenho de construção e edificação. Por esse motivo, concordo com a opinião de que é preciso lutar contra a liberalização burguesa, e igualmente contra a liberalização proletária. Com efeito, não existe liberalização proletária ou socialista: o simples conceito de liberalização é intrinsecamente burguês" (grifo nosso). (Texto integral da diretriz nº 2 do Comitê Central do PCC, divulgada pela Comissão de Assuntos Gerais do PCC. Idem.)
Em 1845, Marx e Engels afirmaram que "a democracia é hoje o comunismo. Uma outra democracia só pode existir na cabeça de visionários teóricos que não se preocupam com os acontecimentos reais... A democracia tornou-se um princípio de massa".
O texto de Marx tem quase 150 anos. Deng tem mais de 80. Sou levado a concluir que, nesse caso, o mais velho é bem melhor.
E esses países, que têm dirigentes como Deng, o que são? Houve revoluções em vários deles. A burguesia foi liquidada. Mas os trabalhadores, paradoxalmente, não detêm o poder. Quem manda são os chefes. Seriam, então, países capitalistas?
Acreditamos que não. Esses regimes são intermediários e não servem para qualificá-los categorias sociais acabadas como capitalismo ou socialismo. Não devemos e não podemos dar uma definição acabada de um processo inacabado. Temos que observá-lo, detectar suas tendências progressistas, as reacionárias, registrar suas variantes.
Pensar que gradativamente esses Estados se transformaram de Estados operários em Estados burgueses significa desenvolver no sentido inverso o filme do reformismo. Se não houve passagem lenta e gradual para a ida, não haverá na volta.
Esses regimes incorporaram contradições enormes que só serão resolvidas em definitivo pela luta de classes, pelo confronto entre as forças vivas, tanto no terreno nacional como internacional: ou a burocracia se torna cada vez mais um órgão da burguesia - e, dessa forma, ela liquidará as formas atuais de propriedade e jogará esses países no capitalismo ou a classe trabalhadora sairá vitoriosa desse confronto, arrastando ou não atrás de si uma parcela dos dirigentes, e abrirá um caminho novo em direção ao socialismo, tentando completar aquilo que foi interrompido. Enquanto isso não ocorre, novas tragédias virão. Para eles; mas também para nós.

Novo curso
O avanço da organização independente dos trabalhadores, na China, na URSS e no Leste europeu se dá simultaneamente ao surgimento de vários agrupamentos que, refletindo sobre a política tradicional, tentam um novo caminho.
Parece que fios invisíveis nos unem, não só na solidariedade, na identificação, na cumplicidade às vezes, mas, fundamentalmente, na ação por melhores condições de vida, por liberdade, pelo socialismo.
Vendo as condições de vida do povo chinês, por exemplo, podemos entender por que milhões e milhões identificam, sem medo de errar, o "comunismo" à barbárie. Fazem-no tão facilmente como nós - mortais que vivemos sob o capitalismo - identificamos neste o obstáculo maior à civilização e ao bem-estar.
Juntos, nós e eles, contra os deles e os nossos, talvez descobriremos um caminho novo.
Hoje, esses movimentos independentes, que afloram em todas as partes, ressentem-se de uma ligação. Stalin acabou com a III Internacional. Nada mais, depois conseguiu, com expressão, ocupar o espaço da Internacional de Lenin. Trotsky tentou em vão, e os trotskistas se debatem entre o gueto e os esquemas.
As forças crescentes do movimento operário têm a obrigação de refletir sobre essa realidade. Já começaram a fazê-lo quando deixaram de lado o rótulo de "comunista". Não por preconceito ao conceito do velho Marx, mas por recusarem qualquer espaço de confusão com os partidos tradicionais, em particular com os PCs.
A reunião dessas forças demandaria um trabalho gigantesco, como aquele que Marx e Engels desenvolveram com os proscritos, os justos, cooperativistas, anarquistas e socialistas. Mas, sem dúvida alguma, seria compensador, para nós, e para o socialismo.

*Glauco Arbix, secretário de Organização da Executiva Estadual do PT-SP e coordenador da Campanha Lula (1989) no Estado.

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