por Boris Schnaiderman*
Foi com grande indignação e profunda tristeza que li o artigo "A cidadania de pé quebrado" de Iumna Maria Simon, no último número desta revista. E se venho agora a público é justamente para expressar esta minha reação. A indignação é perfeitamente compreensível no caso, dada a injustiça dos conceitos emitidos, que se pretendem uma discussão sobre poesia, discussão essa que é tão rara em nosso meio, lembra a autora, mas que se reduzem a um ataque pessoal e de baixo nível contra um poeta da importância de Haroldo de Campos, a quem todos nós devemos tanto. E a tristeza resultou da constatação de que, embora se tenham aberto na Rússia os arquivos do KGB e tenha vindo à tona a crônica sinistra do jdanovismo, com a sua seqüência de horrores, bem semelhantes aos da década de 30, parece que a história nada tem a ensinar a alguns de nossos intelectuais, que se permitem repetir a terminologia, os procedimentos e a ignomínia de quase cinqüenta anos atrás.
Para confirmar isto, vejamos as acusações assacadas contra o poeta. Logo de início ele é chamado de "cosmopolita", o que lembra a campanha contra o "cosmopolitismo", desencadeada na Rússia logo após o famoso informe de Jdanov em 1946. Afinal, as palavras têm uma carga histórica e nós não temos o direito de não a levar em conta. O termo passou a designar então a ligação com a cultura de povos, o menosprezo pelas raízes nacionais e, com freqüência, acabou adquirindo uma conotação anti-semita, pois se via o judeu como um apátrida, um cosmopolita, embora os judeus russos estivessem, na grande maioria, muito assimilados à sociedade.
A referência ao Haroldo como "cosmopolita" e "polilíngue" (esta palavra, num contexto pejorativo, tem algo de grotesco, como se fosse condenável conhecer línguas e outras culturas, e esforçar-se por trazê-las ao nosso convívio) me fez pensar num episódio recente.
No final de junho de 1991, realizou-se em Salto Oriental, no Uruguai, um simpósio internacional sobre a obra de Haroldo. Participaram dele estudiosos dessa obra, vindos de diferentes países: além de uruguaios e brasileiros, havia ali mexicanos e alemães, quase todos viajando por conta própria, sem ajuda de qualquer instituição e realizando um sacrifício considerável para aquela manifestação de admiração cultural. A lembrança desse encontro marca uma situação paradoxal e absurda, depois de ataques como os do artigo em questão. Deixa-se de lado toda uma obra poética e de teoria, reconhecida internacionalmente, como se tivesse importância apenas o fato de Haroldo ter feito um poema a Lula, o que seria um ato de oportunismo. Mas, oportunismo por quê? Certamente, ele não precisaria disso para chegar às "glórias televisivas" e tornar-se "íntimo de atrizes globais e popstars".
Aliás, esta passagem do artigo é simplesmente vergonhosa, pois estamos vendo uma professora universitária encampar os preconceitos mais rançosos contra a mulher que dança, ou faz teatro dramático. O mal estaria em trabalhar para a Globo? Mas, quem trabalha ali é um profissional tão digno como os demais. Por que estas ofensas, esta acidez, esta injustiça? Como tudo isso lembra os discursos de Jdanov, com a sua grosseria, as suas expressões maldosas, o seu sarcasmo barato!
E as ironias contra o "vanguardismo"! Elas são bem década de 40, de período em que esta o poderia ter conseqüências trágicas. Trazer isso para o nosso meio, num contexto de 1994, significa ressuscitar velhos rancores, que só levaram ao obscurantismo, ao isolamento cultural, à rejeição pura e simples da modernidade.
Uma das características do jdanovismo era a atribuição ao oponente de uma segunda intenção sempre, mesmo nos seus atos mais meritórios. O mesmo faz Iumna em relação ao poema de Haroldo dedicado a Lula. Na hora em que as pesquisas davam como certa a sua vitória, ele teria procurado "ganhar a simpatia de uma faixa ampla e diferenciada de leitores". No entanto, não seria difícil documentar com notícias de nossa imprensa, num período anterior ao referido, que Haroldo já havia declarado então claramente sua simpatia pelas posições do PT. Não parece razoável procurar, em cada caso, as "razões ocultas", a "segunda intenção", e julgar uma pessoa não pelo que ela diz e faz, mas pelo que se pensa estar por trás das palavras e dos atos. Que presunção, asseverar que se penetrou assim na psique alheia!
E por que Haroldo não poderia estar agora com Lula e ter votado em Brizola em 89? O que se quer é uma fidelidade irrestrita? Não se pode ter determinada opinião num contexto e mudá-lo em outro? Se em 89 Haroldo achava que se devia fazer tudo para evitar a vitória de Collor e se lhe parecia que Brizola teria mais chances no primeiro turno, deve-se apedrejá-lo por isso? Não parece que exista para o intelectual o caminho único e certo, fora do qual ele seria um traidor e oportunista. A autora do artigo pretende certamente que se rejeitem os intelectuais que pensam de modo diferente do seu, os atores e atrizes que aderiram ao PT, mas não se recusam a trabalhar na Globo, e todos os que ela considera oportunistas e pouco rios. Enfim, busquem-se os poucos mas puros, os ideologicamente corretos, aqueles em quem não se suspeitem intenções ocultas. Mas um partido pode se permitir o luxo de apostar tanto na interpretação dessas intenções? E esta desconfiança, esta prevenção contra quem possa pensar diferente de nós, será compatível com um clima democrático e de discussão?
Concluindo, devo dizer que, embora o artigo de Iumna faça afirmações sobre a "ética em baixa" em nosso meio, deixa de lado uma consideração de ordem ética, que me parece muito importante: é justo convidar um poeta a realizar uma tarefa num prazo curto e, depois que ele a executa com todo o entusiasmo e sinceridade, cobri-lo de insultos, acompanhados de lucubrações sobre o que pretendia com aquele trabalho? A culpa certamente não cabe a quem o convidou, mas nem por isso o caso é menos revoltante.
*Boris Schnaiderman é ensaísta e professor.
Andrei Jdanov (1894-1948) foi o poderoso encarregado das questões de ideologia e cultura do PCUS no auge do stalinismo. De família burguesa, ele participou do Partido Bolchevique depois de 1915, ligando-se a Stalin no início dos anos 20.
Sua carreira na burocracia do partido é "exemplar". Foi comissário político durante a Guerra Civil; secretário do partido em Nighi-Novgorod de 1922 a 1934; responsável, por designação de Stalin, pela depuração da juventude do partido contra a Oposição Inificada (Trotski, Zinoviev e Kamenev); suplente do Comitê Central em 1925; responsável pela luta contra os "direitistas" (Bukharin e Rikov) nos sindicatos; titular do CC, secretário e membro do birô de organização em 1934; substituto de Kirov à frente do partido em Leningrado após o assassinato desde fins de 1934; suplente do BP em 1935; e titular em 1939. Responsável pela defesa de Leningrado, foi considerado, depois da guerra, o delfim de Stalin. Responsável pela ideologia, conduziu a campanha contra os intelectuais neste período. Faleceu subitamente e sua morte é atribuída aos médicos do Kremlin. Ela foi seguida da depuração do aparelho de Leningrado e da execução de seus colaboradores mais próximos.
Já em agosto de 1934 Jdanov foi o representante do CC do PCUS no I Congresso dos Escritores Soviéticos realizado em Moscou, que enterrou definitivamente a rica e contraditória experiência das vanguardas artísticas soviéticas, vigorosa até o final dos anos 20. Tem um papel crescente na fixação da estética do regime, o realismo socialista.
O "jdanovismo" foi, depois da guerra, a linha oficial na ciência e na estética. Nele, a pintura exaltava as virtudes do novo regime e a força do proletário russo, os heróis do romances eram paradigmas do conformismo, as manifestações culturais dos povos não-russos eliminados como expressões de chauvinismo nacionalista e as correntes de vanguarda das ciências combatidas como ideologias burguesas (entre elas, a biologia de Morgan, a mecânica ondulatória, a física nuclear, a cibernética e a psicanálise). Jdanov foi o promotor da "genética proletária" de Lyssenko. Os cientistas e artistas que não se enquadravam na linha do senhor da ideologia foram depurados.
Se Lukacs conciliou com os ditames do novo regime na área cultural, um escritor brasileiro como Graciliano Ramos soube, quando presidente da UEB, qualificar com precisão o patrono do realismo socialista: "é uma besta".
*José Corrêa Leite é membro do Conselho de Redação de T&D.
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