Teoria e Debate nº 8 - outubro/novembro/dezembro de 1989
Capa e ilustração: Camila Casarino Costa

Há precisos dois anos, uma pergunta incômoda - "quem são os aliados do PT? " - cruzava a capa do primeiro número de uma nova revista trimestral. Na época, o partido jogava os primeiros lances para o encaminhamento da política de alianças que, conforme a resolução aprovada no V Encontro Nacional, seria uma exigência inexorável do período que se abria. Os 5.000 exemplares daquela publicação disseminaram-se por militantes do país inteiro. A discussão estava na ordem do dia. Com ela, a necessidade de garantir a multiplicidade de opiniões, de abrir canais para o diálogo aberto com setores diversos da sociedade civil, de aprofundar o exercício da democracia, dentro e fora do partido.
Já são passados episódios decisivos desse período. A nova Constituição Federal está promulgada, eleições municipais foram realizadas e, agora, as eleições presidenciais aproximam-se do desfecho. O Partido dos Trabalhadores, progressivamente, desenvolveu a política de alianças trabalhando com a realidade, com os princípios éticos e a coerência que têm sido a sua grande identidade. Aquela publicação que nascia dois anos atrás também se desenvolveu. A revista trimestral se tornou conhecida e necessária para a vida partidária e seu nome, uma espécie de chancela que traz à luz o exame das questões essenciais, por vezes espinhosas, assegurando expressão aos pontos de vista mais plurais: Teoria e Debate. Ela completa com esta edição o seu segundo ano de existência. São 6.000 assinantes. São 15.000 exemplares em circulação.
Como naquele primeiro número, outra vez uma pergunta arrojada comparece à capa de Teoria e Debate: "socialismo real - o que desfazer?". É preciso olhar de frente para o terrível ponto de interrogação que desafia os socialistas do mundo todo, num período em que a falência de certas fórmulas do chamado socialismo real parece confundir-se, para muitos, com o desmoronar de uma utopia. Não é bem assim que enxergamos os últimos acontecimentos na China, na União Soviética, em Cuba, no leste europeu. E mesmo, para nós, bastante provável que as conquistas das liberdades e da democracia venham a desobstruir a marcha do socialismo a nível internacional. Por isso, admitir que erros históricos devem ser desfeitos - e, ao mesmo tempo, perguntar-se a respeito desses mesmos erros, e a respeito do que deve ser fortalecido, repensado e redirecionado - não significa sucumbir à tentação fácil do modismo que procura negar o avanço formidável que o socialismo proporcionou à humanidade. Muito menos significa render-se ao expediente do revisionismo que procura velar más intenções. Ao contrário, encarar esta polêmica é fazer um pacto com a procura da verdade, a aliada mais forte dos revolucionários.
Estamos convencidos de que essa pergunta, e a bela discussão que aqui publicamos - com artigos de Jacob Gorender, Daniel Aarão Reis Filho e Glauco Arbix - é tão importante como aquela que trazíamos em nosso primeiro número. Debatendo e informando acerca dos caminhos e descaminhos do socialismo no mundo estaremos garantindo propostas e práticas mais maduras dentro do nosso país. A cada dia, para nós de Teoria e Debate, fica provado que a discussão não é, em momento algum, indesejável, da mesma forma que fica provado para nós que algumas discussões, em alguns momentos, são indispensáveis. Estamos diante de uma delas.
Fazer a revista Teoria e Debate durante estes dois anos tem sido uma experiência que só supera expectativas. Descobrimos, por exemplo, a surpreendente fome de leitura crítica por parte da maioria dos militantes, lado a lado com um insuspeitado interesse extrapartidário pelos artigos que publicamos. Há uma enorme capacidade de absorção, compreensão e discussão em nosso partido, muitas vezes potencializada pela leitura em grupo, pelo estudo em cursos de formação, pela reprodução de artigos em encontros e seminários. Existe uma criativa e inovadora potencialidade de elaboração, expressa em textos produzidos por militantes que jamais freqüentaram a universidade publicados em quase todos os números desta revista. Descobrimos que uma publicação inteligente não seria, obrigatoriamente, uma publicação de e para intelectuais, e que a tola pretensão de "popularizar" idéias e linguagens através de discursos considerados mais "acessíveis" muitas vezes esconde uma subestimação da capacidade crítica do leitor, ou escancara o paternalismo cultural.
Em Teoria e Debate não há qualquer tentativa de vulgarização ou de divulgação propagandística - e talvez seja exatamente essa a razão pela qual a revista tenha se tornado tão divulgada e tão propagandeada espontaneamente. O desafio é exatamente este: como editar uma publicação não acadêmica e que não rebaixe a discussão mas cuja forma e estilo facilitem a sua leitura por todos. Descobrimos, sobretudo, que sem a participação cada vez maior das pessoas, que enviam pautas, artigos, que criticam, e que espalham exemplares da revista para todo lado, Teoria & Debate não existiria e jamais teria completado dois anos. Estamos mudando este país e enfrentando os debates mais difíceis, como o que publicamos nesta edição sobre o socialismo real, estamos mudando muito mais. Estamos mudando a nós mesmos.
Conselho de Redação
Sumário:
Debate
Socialismo Real - Um mundo de ponta cabeça
Daniel Aarão Reis Filho
Crise mortal ou reconstrução?
Jacob Gorender
O crepúsculo da burocracia
Glauco Arbix
Nacional
Da alianças à solidariedade
Florestan Fernandes
Memória
Clara Charf, duas histórias de luta, uma história de amor
Maria Rita Kehl e Paulo de Tarso Venceslau
Ensaio
Um fio de continuidade
Michael Löwy
Opinião
Ameaçador ou ameaçado?
Vladimir Palmeira e Carlos B. Vainer
Trabalhadores
Mais valia feminina
por Elizabeth Souza Lobo
Dissolver a neblina
por Regina Reyes Novaes
Cultura
Cultuar ou cultivar
Marilena Chauí
Economia
O remédio e o medo
Plínio de Arruda Sampaio Jr.
Sociedade
Quem manda na loucura?
Antonio Lancetti
Internacional
Governabilidade por um triz
Luís Fernando Ayerbe
Livros
O PTB e o trabalhismo, de Maria Victoria Benevides
por Elisabeth Lima
Morte lenta no trabalho
por Maurício Tragtenberg
Poeta: Armando Freitas Filho
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