Artista da capa: Antonio Benetazzo

Quando estourou o escândalo da vala do cemitério de Perus, em São Paulo, com 1.500 ossadas, não restavam mais que 120 desaparecidos políticos. Cálculos mais "otimistas" baixavam o total para setenta. Com a descoberta, entidades de defesa dos direitos humanos, partidos e personalidades da sociedade civil fincaram posição: as investigações teriam de ser transparentes para averiguar com segurança a existência ou não de desaparecidos políticos no meio daquelas centenas de mortos. Procedimento justo, legítimo e necessário. Nenhuma nação pode conviver tranqüilamente com cadáveres. Mas a situação toda é pavorosa demais. Os mortos pela ditadura militar foram ocultados pelos assassinos num cemitério de mendigos, indigentes e desconhecidos. Depois, foram empilhados na vala comum com miseráveis de todo tipo, gente que, em vida, já era desaparecida, mais que política, desaparecida social. Aos militantes mortos, o sumiço dos corpos foi um prolongamento fúnebre da vida clandestina. Um castigo macabro, barbárie intolerável. Aos mortos comuns, a escória, tudo ficou como sempre terá sido. Ninguém chorou por eles. Ninguém reclamou-lhes a ossada. Suas caveiras estão lá, atrapalhando as buscas. São esses mortos miseráveis os desaparecidos dos novos tempos, tempo de recessão sistemática, de queima de homens. São eles as vítimas dos campos de concentração à brasileira, as favelas, as aglomerações de crianças abandonadas, esses guetos onde um bebê é condenado de antemão a apodrecer no anonimato afetivo, moral, social e, também, político. As caveiras de Perus, caveiras de "desconhecidos", segundo os registros do próprio cemitério, são o sinal dos vivos condenados. Com elas foram se confraternizar, na morte, os guerrilheiros que, em vida, tentavam redimi-las da miséria. Quanto aos vivos condenados, os milhões que herdarão a sina das caveiras comuns, estes continuarão a adubar o terreno dos novos e velhos liberalismos.
A capa e as ilustrações deste número de Teoria & Debate são de Antonio Benetazzo, um dos lutadores que foram enterrados no cemitério de Perus. Ele nasceu em Verona, Itália, em 1941, e veio com nove anos de idade para o Brasil. Sua militância política teve início na década de 60, quando, aluno da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e da Faculdade de Filosofia da USP, entrou para o PCB. Dissidente do partidão, participou da fundação da ALN (Ação Libertadora Nacional). Em 1969, foi para Cuba, onde, juntamente com outros companheiros, criou a Molipo (Movimento de Libertação Popular). Dois anos depois, Benetazzo voltou ao Brasil, e ficou na clandestinidade até ser preso, em 27 de outubro de 1972. O atestado de óbito leva a data de 30 de outubro do mesmo ano. Na versão oficial, ele foi atropelado enquanto tentava fugir; na verdade, um tiro o matou. Enterrado em Perus, seu corpo foi trasladado para o jazigo da família em 1979, após a anistia. Uma trajetória como tantas outras, a de Benetazzo. Salvo por um detalhe: enquanto a razão adormecida produzia monstros, ele desenhava, pintava, brincava com pontos, linhas e planos. Depois de tudo, o seu traço permanece vibrante como um traço que fugiu. É o testamento de um artista possível em busca de seu caminho. É a essa possibilidade, a todas as possibilidades interrompidas e desperdiçadas, que Teoria & Debate presta homenagem.
Conselho de Redação
Sumário:
Entrevista - Eduardo Suplicy
A vitória da transparência
por Eugênio Bucci e Mário Sabino
Ensaio
Ecologia: nossos verdes amigos
César Benjamin
Memória
Entrevista - Goffredo Telles Jr.
Eugênio Bucci
Debate
Caminhos estratégicos - A estratégia da pinça
Juarez Guimarães
Revolução: que ruptura?
Augusto de Franco e Juarez de Paula
Socialismo
Tradição / contradição:
O pior cego é aquele que não quer ver
Wilson Luiz Muller
Cultura
Ação Integradora: cultura também é política
Alípio Viana Freire e Mário Bolognese
Opinião
Terceira via: A social-democracia e o PT
Marco Aurélio Garcia
Trabalhadores
Política agrária: terra arrasada
Lauro Francisco Mattei
Sociedade
Entrevista - Félix Guattari
A subjetivação subversiva
por Antônio Lancetti e Maria Rita Kehl
Economia
Mercado reinventado: o socialismo (é) possível
Luiz Koshiba
Resenha
A revolução faltou ao encontro
Carlos Wainer
Poeta: Charles Baudelaire (trad. Fernando Sabino)
Cartas dos leitores
Tags:
FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO
Rua Francisco Cruz, 234 - Vila Mariana - CEP 04117-091 - São Paulo - SP - Brasil
Fone: (11) 5571-4299 - Fax (11) 5571-0910