Poema Manifesto de Eridan Passos
Uma leitora me disse:
Sabe, eu conheço uma solteirona que também faz versos.
Verso robe de florzinha cor-de-rosa
Pé de violeta no parapeito
batom vermelho
E domingos intermináveis à janela.
Mostrarei meu caderninho de endereços de A a Z,
completo
Cartas escabrosas que recebo
Meu coração mofado de tantos guardados:
frasco de perfume,
anel de seus cabelos
cópia manuscrita de fascinação
meu outro rosto de mulher tracejado a lápis
pedaço de giz pintado
barquinho de papel
oração a São Francisco de Assis.
O único que não tive em minha cama foi Deus.
Por isso meu verso austero.
Eridan Passos*
Sobre o poeta
Primeiro Eridan Passos quis ser bailarina. Ligou o rádio rodopiou. Era criança, Bahia, e ninguém reparou. Sossegou a Ana Pavlova e passou a escrever diários e cadernos de recordação secretíssimos. Depois, o curso de Direito, a agitação dos anos 60. Desfilou em passeatas, rodou mimeógrafos e leu tudo de Carmem da Silva e Simone de Beauvoir. Esperava o sonho. Veio o AI-5. Desembarcou na rodoviária do Rio de Janeiro com um toca-discos e uns livros. Alugou quarto, dividiu sanduíches, passeou a pé, tornou-se funcionária. E poeta. Dois livros: Mesa de trabalho (1985) e Sobre a página em branco (1987), que inclui o poema de nossa capa.
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