O mundo que venci deu-me um amor
O mundo que venci deu-me um amor,
Um troféu perigoso, este cavalo
Carregado de infantes couraçados.
O mundo que venci deu-me um amor
Alado galopando em céus irados.
Por cima de qualquer muro de credo,
Por cima de qualquer fosso de sexo.
O mundo que venci deu-me um amor
Amor feito de insulto e pranto e riso,
Amor que força as portas dos infernos,
Amor que galga o cume ao paraíso.
Amor que dorme e treme. Que desperta
E torna contra mim, e me devora
E me rumina em cantos de vitória...
por Luiz Dulci*
Mário Faustino (1930-1962) foi um dos literatos mais instigantes do Brasil nos anos 50.
Poeta, crítico e tradutor, exerceu fecundo magistério cultural através de sua página "Poesia - Experiência" no Jornal do Brasil.
Semanalmente, em artigos concisos e densos, quase aforísticos, mas de grande legibilidade, procedeu à revisão de toda a melhor poesia brasileira, de Anchieta aos concretistas. Autor por autor, com juízo seguro e livre, apontou qualidades limitações, grandezas e misérias, destacando em cada um a sua obra verdadeiramente viva e o contributo respectivo para a sedimentação de nossa cultura poética.
Dedicou-se também, com vasta e orgânica erudição, a examinar e difundir aquela tradição ocidental moderna que julgava pertinente aos desafios poéticos contemporâneos: Mallarmé, Laforgue, Valery, Eliot, Pound, Cummings etc...
Ressalvados os cacoetes de época, sua obra crítica — quase toda reunida em dois volumes póstumos, Poesia Experiência e Evolução da Poesia Brasileira — conserva notável vigência, pela finura analítica, lucidez valorativa e o radical compromisso com o destino da poesia.
Em vida, Mario Faustino publicou apenas um livro de poemas, O homem e a sua hora (1956), suficiente porém, segundo Benedito Nunes, seu privilegiado interlocutor e criterioso editor, para evidenciar "perfeito domínio do verso, expressão condensada e [...] grande fluência de dicção".
Nos anos derradeiros, marcados pelo seu peculiar e qualificadíssimo diálogo com as vanguardas, Alfredo Bosi sublinha "a riqueza subjetiva e inovadora dos seus textos, constelados de mitos dionisíacos e, ao mesmo tempo, centrados na exploração dos significantes".
Mário nasceu em 1930, em Terezina, mas logo transferiu-se para Belém. Ingressou no jornalismo aos 16 anos, publicando crônicas e poemas. Interrompeu o curso de Direito na Universidade do Pará para estudar língua e literatura inglesas no Pomona College da Califórnia (1951 e 1952). Chefiou o setor de imprensa do Plano de Valorização Econômica da Amazônia até 1956. Já no Rio de Janeiro, foi professor da Escola de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas entre 1956 e 1958. Nesse período é que dirigiu a página de poesia do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil. Foi funcionário da ONU (1959-1960), retornando depois ao jornalismo.
"A morte, que o poeta invocou e cantou, sobreveio rápida e fulminante. Na madrugada de 27 de novembro de 1962, seguiu para o exterior a fim de escrever reportagens especiais sobre Cuba, México e Estados Unidos para o JB. O avião em que viajava explodiu perto de Lima, caindo sobre os Andes (Cerro de los cruces). Mário Faustino havia completado 32 anos de idade" (B.N.).
FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO
Rua Francisco Cruz, 234 - Vila Mariana - CEP 04117-091 - São Paulo - SP - Brasil
Fone: (11) 5571-4299 - Fax (11) 5571-0910