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Minhocas de Carlito

publicado em 15/04/2006

Peguei os jornais do dia e comecei a dar uma folheada. O assunto das manchetes era o mesmo: Lei do Inquilinato e Congelamento dos Aluguéis...
"Minha mesa ficava em frente à do Carlito, o que me tornava um observador privilegiado e obrigatório de sua estranha forma de trabalhar. Ele passava horas fumando, esfregando as mãos, olhando para fora, lendo jornais... e pensando. Quando menos se esperava o Carlito dava um berro:

- Tive uma puta idéia!

A puta idéia, quase sempre, era sensacional. Depois de jogar a invenção na mesa, o gênio descia para comemorar o feito... No Paribar, é claro. Aos sócios cabia a tarefa de descobrir se a idéia era exeqüível e para que cliente serviria. Quando não se adequava aos clientes da casa o projeto virava solicitação no ato.

- Vamos vender esta para uma fábrica de cigarros!

Raro era o peixe que não engolia as iscas do Carlito...

Certa manhã, eu cheguei mais cedo para adiantar uns textos antes que os telefones disparassem a tocar. A faxineira, muito gentil, foi preparar um café na copa. Peguei os jornais do dia e comecei a dar uma folheada. O assunto das manchetes era o mesmo: Lei do Inquilinato e Congelamento dos Aluguéis...

Pouco depois chegou o Carlito, assobiando sua alegria matutina. Enquanto trocávamos nossas habituais saudações são-paulinas (o Magaldi era Corinthiano), a faxineira entrou com a bandeja de café e um ar de séria preocupação...

- O que é que houve D. Maria? - perguntou o prestativo Carlito.

- Sabe... é que estou preocupada com esta nova Lei do Inquilinato...

Uma bola levantada com tanta precisão, o Carlito nunca poderia desperdiçar:

- Imagine! A senhora pode ficar tranqüila! O presidente Jango jamais irá fazer uma Lei para prejudicar os pobres!

Aí aconteceu o imprevisível. Muito sem graça e mais assustada ainda com os esclarecimentos tranqüilizadores do patrão, a faxineira informou a razão objetiva de seus problemas:

- Pois é, seu Carlito! Sabe como é? Eu tenho umas casinhas de aluguel lá no meu bairro e não sei como é que vai ficar a minha renda...

A xícara de café começou a tremer nas mãos do prestativo Maia. Eu me arranquei da sala para ir dar risada no banheiro. Quando voltei, meu politizado sócio tinha desaparecido. A faxineira, duplamente apavorada, ainda veio me perguntar se havia feito ou dito alguma coisa de errado:

- Não sei por que, mas acho que seu Carlito ficou bravo comigo...

O BOM CONSELHEIRO OUVE O CASO POR INTEIRO.

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